Perdeu o emprego? Redescubra o seu potencial profissional

Para erguer um imponente edifício, por que não começar logo por cima dos escombros?

“Não sei para onde vai a minha carreira, nem muito menos o que sonho para o meu futuro”. A afirmação, embora pareça fúnebre e desesperançosa, traduz aquele pensamento intrometido que a maioria dos indivíduos possuem, basta que se deparem com situações difíceis, principalmente neste início de ano, onde o desemprego já atinge 12,7 milhões de brasileiros.

Seria o fim da felicidade profissional? Longe disso. De acordo com estudos desenvolvidos pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, 70% dos pensamentos pessimistas a respeito de si próprios e, consequentemente, sobre suas carreiras, não passam de uma “armadilha”. Isto é: para justificar uma ameaça, o cérebro passa a distorcer os acontecimentos.

Em vez de articular as interpretações, como, por exemplo, “estou desempregado, mas esta situação é temporária”, o psiquismo engendrado pela negatividade prefere a tática perversa de pensamento “perdi o emprego, nunca mais conseguirei retornar ao mercado de trabalho”, em uma tentativa agonizante de reconstruir o mundo ideal e, ao mesmo tempo, permanecer fiel ao vitimismo.

Mas, como assim? Para o especialista em psicologia positiva, Martin Seligman, a lógica é simples. Ao fazer de uma pequena perda uma hecatombe, o indivíduo prefere acreditar que perdeu tudo, uma vez que isso cria a ilusão de que, “sem um tostão no bolso”, ele será obrigado a direcionar tudo de si para que, quem sabe um dia, algo bom aconteça em sua vida.

Em outras palavras, em vez de se concentrar em manter a energia vital que restou da perda de uma posição favorável – o emprego -, esvaziar-se totalmente de energia alimenta a fantasia composta por “só posso recriar uma situação se, antes disso, tudo estiver destruído”. Ora, para erguer um imponente edifício, por que não começar logo por cima dos escombros?

Na visão de Seligman, entretanto, o estratagema é perigoso e delirante. Ninguém precisa reduzir tudo a poeira e pó para que novos andares possam ser construídos por cima de uma parede que, infelizmente, desabou. Este mecanismo, em vez de conferir mais energia para manusear lajotas e erguer vigas de aço, esgota o psicológico, tornando-o improdutivo e infeliz.

Para escapar à demolição profissional, basta que algumas medidas simples sejam tomadas. A primeira delas consiste em confrontar fatos, aproximando-os do real. Para isso, basta articular respostas para as perguntas: “esta é a primeira vez que perco o emprego?”, “o que, de fato, aconteceu comigo da outra vez?” e “que consequências tangíveis esta situação trouxe?”.

Diminuir os exageros também é essencial para edificar a estrutura do eu. Por que ladrar os discursos hiperbólicos “isto sempre acontece comigo” ou “o meu currículo não é competitivo como os demais?”. Ao substituí-los por sentenças positivas como “isto foi uma adversidade que pode ser contornada”, sobrará vitalidade para ir à luta e galgar o cargo que se deseja.

Culpar-se pelo que não deu certo? Nunca mais. Em vez disso, reinterpretar o passado, tornando-o mais afável, pode liberar a força oculta da personalidade. Diga adeus às lamúrias “não me graduei, por isso fui demitido” e “não me conformo com esta demissão”, trocando-as pela interpretação “isto aconteceu para que eu pudesse mudar o rumo da minha carreira”.

Desistir da bonança que virá no futuro? Isto não funciona. Para a psicologia positiva, manter constantemente os pensamentos formados por “eu quero realizar”, “este ano irei fazer” e “meu sonho é” faz com que os pontos fortes da personalidade se mantenham atuantes, conferindo maior tônus para cada atividade, função ou desafio que virá pela frente.

Por fim, ser grato por tudo que acontece, até nas situações mais sórdidas, faz com que uma consistente argamassa seja firmemente colocada entre cada pedacinho da estrutura mental, tornando-a una, pronta para retribuir toda a benevolência dada pela obra da vida. Afinal, mesmo a pau e pedra, nem tudo precisa ser o fim do caminho.

Por Renan Cola,  psicanalista da É Freud, viu?