Silvio Santos, a trajetória do maior comunicador do Brasil

A saga de um camelô que trabalhava já aos 14 anos, venceu adversidades e construiu um império

Na manhã do dia 25 de outubro de 2017, durante a reunião do editorial, o celular da editora-chefe da Universo dos Livros tocou. Como não reconheceu o número que a chamava, Marcia Batista ignorou a ligação e prosseguiu no trabalho. O número insistiu e, ignorado mais uma vez, deixou recado na caixa postal. Ela, então, resolveu ouvir a mensagem. E qual não foi sua surpresa ao perceber que se tratava de uma das vozes mais conhecidas do país: era Silvio Santos. Admiradora do dono do Baú da Felicidade e autora (juntamente com Anna Medeiros) do livro Silvio Santos — a biografia, Marcia gelou. Em meio à surpresa da ligação e à alegria de falar com Silvio Santos, retornou imediatamente o telefonema, e ele mesmo atendeu à chamada no primeiro toque…

 A saga de um camelô que trabalhava já aos 14 anos, venceu adversidades, construiu um império e se tornou um dos poucos brasileiros na lista das maiores fortunas mundiais publicada pela revista Forbes. No livro Silvio Santos — a biografia, de Marcia Batista e Anna Medeiros, lançamento da Universo dos Livros, o leitor é convidado a conhecer um pouco mais sobre a vida de um dos maiores comunicadores brasileiros, cuja trajetória se confunde com a história das telecomunicações no país.

Com dedicatória a Silvio Santos, a obra levou cerca de dois anos para ser realizada, desde o início das pesquisas até a inserção do último ponto final. Com dados e informações colhidos a partir de entrevistas com artistas e inúmeras publicações sobre o empresário, contando inclusive com algumas declarações feitas pelo próprio biografado à imprensa — visto que Silvio (nem nenhum familiar) não foi consultado, por ser avesso a homenagens —, a biografia contém diversas atualizações, além de apresentar um grande diferencial: uma visão de Silvio possível apenas aos olhos de quem trabalha com ele.

Nomes famosos, como Carlos Alberto de Nóbrega, Maisa Silva, Leão Lobo, Décio Piccinini, Mara Maravilha, Sonia Abrão e José Nêumanne Pinto, e desconhecidos do grande público, como Maurício Sobral, segurança do SBT, e Felipe Ventura, jovem publicitário que participa do Teleton desde os oito anos de idade, compartilham histórias saborosas com as autoras, mostrando o lado humano de Silvio, pouco aparente fora das câmeras, que escapa aos telespectadores. O livro também traz diversas fotos exclusivas e revela a transcrição inédita de uma carta de agradecimento, escrita à mão pelo “Patrão” mais famoso do Brasil aos seus colaboradores em ocasião dos 50 anos do Grupo Silvio Santos.

“O importante neste meio século foram as oportunidades, o aprendizado e os empregos que demos a tanta gente. Acredito que todos os que continuam e todos os que nos deixaram sentiram o nosso amor, nosso carinho e nossa vontade em tê-los como integrantes de uma grande família, que hoje tem como única finalidade a manutenção das empresas, para que possam dar aos seus colaboradores uma vida melhor, fazendo com que cada dia de trabalho seja um dia de alegria.” (Silvio Santos — a biografia, pág. 262.)

 

Silvio Santos vem aí…

Nascido no Rio de Janeiro, em 12 de dezembro de 1930, Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos, desde muito jovem conjuga com seu instinto empreendedor o entretenimento, buscando sempre novas fórmulas para atrair a atenção e conquistar os clientes. Tanto que, enquanto vendia canetas no boêmio bairro carioca da Lapa para ajudar no sustento da família, fazia números de mágica. Conforme disse certa vez: “Como camelô, eu já era um empresário. Mantinha três funcionários. Um ficava olhando quando vinha o rapa. O outro cuidava do estoque de canetas e o terceiro funcionava como farol. Ele chegava de quinze em quinze minutos e dizia: ‘Gostei da caneta, me dá uma’, chamando a atenção dos clientes.”

Jogos, brincadeiras e charadas sempre fizeram parte das performances de Silvio, aliando à diversão um aguçado senso de oportunidade, ousadia e trabalho duro. Empreendedor, ele nunca deixou de ter o próprio negócio, nem mesmo quando trabalhava no rádio, ainda como um jovem e talentoso locutor. Seja com o baile na barca para Paquetá, ou com o bar “Nosso Cantinho”; com a revista de passatempo “Brincadeiras para você”, ou com a caravana do Peru que Fala. Foi assim também quando conheceu o amigo Manoel de Nóbrega, que o levou para a TV e para um falido Baú da Felicidade, o grande acerto na vida de Silvio Santos.

A sagacidade de enxergar potencial em um Baú da Felicidade praticamente falido e a perspicácia de criar uma empresa de publicidade e um estúdio para anunciar seus artigos — e produzir os próprios anúncios — mostram que Silvio via em cada obstáculo uma oportunidade para expandir os negócios. E isso foi apenas o início do Grupo Silvio Santos, que viria a se tornar um império de produtos e serviços voltados para as classes populares. Vamos sortear casas e carros? Por que não termos uma construtora e uma concessionária de automóveis? Inflação? Criemos uma financeira.

Foi esse mesmo foco popularesco que fez Silvio perder espaço na maior emissora brasileira de televisão — a Globo —, após a compra da TV Paulista, que transmitia seu Programa Silvio Santos. Apesar de ser líder absoluto de audiência aos domingos, o show fugia ao novo “Padrão de Qualidade” adotado pela direção do canal. Para muitos, isso poderia ter sido motivo de frustração. Para o comunicador, foi o acontecimento decisivo para conseguir o tão desejado canal próprio: contando com o fiel apoio do público, o reconhecimento do meio artístico e o respeito da crítica, Silvio pôde formular um plano perfeito que garantisse ao governo que ele merecia vencer a licitação para ocupar o canal 11.

E, é claro, seus planos para a TVS não poderiam ser menos que grandiosos: a programação, ainda restrita ao Rio de Janeiro, ia das telenovelas (algumas produzidas pelos Estúdios Silvio Santos) ao jornalismo, passando pelos programas de auditório, formato que havia destacado Silvio Santos no cenário televisivo brasileiro. Não é de admirar que em alguns anos, em uma nova licitação de canais, o governo novamente acreditasse no potencial do empresário e lhe concedesse quatro canais, alguns deles de São Paulo, tornando realidade o sonho do Sistema Brasileiro de Televisão.

Quando discursou na conquista da concessão dos canais para a formação do SBT, em 1981, o empresário dirigiu-se à esposa, Iris Abravanel: “O trabalho vai aumentar, mas eu continuarei sendo o bom marido e pai que sempre fui. Eu dirijo o meu trabalho, o meu trabalho não me dirige.” Apesar de ter criado um império à custa de muito esforço e dedicação, em Silvio Santos — a biografia é possível conhecer mais sobre a sua dedicação à família, o choque da perda da primeira esposa, Cidinha, para o câncer, o encantamento e romance com a nova (e atual) companheira, Iris, e a relação com as seis filhas: Cintia, Silvia, Daniela, Patricia, Rebeca e Renata. Criadas com foco bastante firme na realidade e na responsabilidade de manter o legado construído pelo pai, elas hoje cumprem funções variadas no Grupo Silvio Santos, seja na frente ou atrás das câmeras, desenvolvendo os conhecimentos que aprenderam com os pais.

E que grande legado é o SBT, não apenas para a família, mas também para o povo brasileiro. O canal foi responsável por popularizar atrações inesquecíveis no imaginário dos brasileiros: Bozo; Vovó Mafalda; Chaves; Mara Maravilha; o TJ Brasil, com Boris Casoy; o Programa Livre, com Serginho Groisman; o Aqui Agora; A Praça É Nossa; Show de Calouros; Qual É a Música?; Show do Milhão; a banheira do Gugu; o sofá da Hebe; as novelas mexicanas; os bordões do próprio Silvio, entre outras. Ao longo das mais de três décadas desde o nascimento da rede, o país viveu muitas transformações: na legislação que rege os canais de TV, no interesse do público, na política e na economia. Ninguém melhor que o menino que se reinventou, que passou de camelô a radialista a apresentador a milionário, para liderar a reinvenção de um império que ultrapassa os limites da comunicação e vai de cosméticos a um banco.

 

Retomando o telefonema de 25 de outubro de 2017, Silvio fez questão de agradecer o exemplar do livro e de dar os parabéns à Marcia. Até então, ele não tinha conhecimento da obra, que estava ainda no prelo. Nesses 70 anos de profissão, finalmente se pode reproduzir uma declaração do Silvio Santos sobre a própria biografia:

“Antes desse, houve dois livros que tratavam da minha história. Mas esse, Marcia, esse é o primeiro livro que é biografia. Acho que o grande diferencial sobre ele é ter esses depoimentos, que é uma coisa que nunca ninguém fez.”

 

Alguns relatos exclusivos do livro:

“Silvio Santos, para mim, é sinônimo de amizade e de lealdade. Nós nos conhecemos desde 1954, quando ele começou a trabalhar na Rádio Nacional. Ficamos amigos e foi amor à primeira vista. Ele é um grande amigo e exemplo de profissional. Além da eterna gratidão que tenho pelo amigo que ele foi do meu pai, posso afirmar que o Silvio mudou a minha vida em 8 de abril de 1987, quando assinei o primeiro contrato aqui no SBT. Tanto artística como particularmente, só tenho gratidão ao Silvio, além de respeito e minha eterna amizade.” — Carlos Alberto de Nóbrega

 

“Hoje o Silvio não é mais meu patrão – ele é meu amigo. Ele é amigo de todos os funcionários. É uma pessoa de coração muito grande e um homem atencioso com todos, não interessa a função. Se passa pelos corredores do SBT e tem alguém limpando o chão, ele para e cumprimenta. Esse é o Silvio Santos! Eu me orgulho de acompanhar o Silvio há 58 anos e ser o funcionário número 1 dele. Tem até um papo de que sou filho dele com a Vera Verão.” — Roque

 

“Eu orei para voltar a trabalhar ao lado do Silvio. É incrível estar ao lado dele no palco. Parece sempre a primeira vez, pois é muita luz. Você fica maravilhada. Todo mundo aqui no SBT é família para ele. Não dá para descrever esse homem. Tenho muito orgulho da minha trajetória, pois sou a Mara Maravilha dele. Cria mesmo. Não sou Abravanel, mas meu DNA artístico é Silvio Santos. Tem pessoas que não podiam morrer, né? O Silvio é uma delas. Ele é um escolhido de Deus. Assim como Davi e Moisés. O Silvio veio para essa Terra fazer a diferença. Para mim, ele só perde para Jesus e não tem para ninguém.” — Mara Maravilha

 

“Com o Silvio, aprendi muitas lições que vou levar para o resto da minha vida. Ele é um mestre e tenho a honra de tê-lo como patrão. Tenho amor e muita gratidão por ele, pois além de ser um mito, um ícone, ele é uma pessoa muito boa. Muita gente que tem um destaque um pouquinho maior se acha no direito de ser melhor que os outros. Mas ele não. A humildade foi o maior ensinamento que o Silvio me passou. Teve um episódio que não foi ao ar, mas que nunca vou esquecer: um menino monstro foi lá no programa e eu chorei. Mas o Silvio não sabia que eu tinha medo. Ele ficou superpreocupado quando me viu chorar, parou a gravação, me pegou no colo e falou ‘Ô, meu amor. Não fica assim. Eu não sabia.’ Ele é o cara. Ele é demais.” — Maisa Silva

 

“Antes de qualquer coisa, o Silvio representa, para mim, um grande amigo. Eu o conheci como repórter mais ou menos em 1968. Só posso agradecer muitíssimo, pois ele transformou meu nome – um jornalista como milhares de outros que o cercavam – conhecido em todo o território nacional. A gente já se afastou várias vezes ao longo desses quase cinquenta anos, trabalhei em diversos outros lugares, mas sempre acabo voltando para o SBT. Sou muito grato e tento retribuir dando meu melhor em tudo o que eu faço com ele e para ele.” — Décio Piccinini

 

“Existem figuras icônicas como Chacrinha, Hebe, J Silvestre, Blota Júnior, Flavio Cavalcanti, Airton Rodrigues e Lolita. Tudo o que sabemos sobre televisão aprendemos com eles. Cada um com seu brilho e estilo próprio. Mas o Silvio é a própria história da televisão brasileira. Ele é fundamental. O maior. Sou muito grato a você, Silvio. Você tem em mim um defensor. Não que você precise porque você é brilhante. Mas eu guardo você no melhor lugar do meu coração.” — Leão Lobo

 

“Dizer que Silvio Santos é gênio, mestre da comunicação, maior animador da TV brasileira já não é mais suficiente para descrever esse artista que está no palco há 50 anos e se renova a cada domingo. Tão íntimo da dona de casa quanto das colegas de trabalho, entra tão sem cerimônia na nossa sala quanto brinca no meio do auditório. E mora no coração da gente! Ele simplesmente é; dispensa definições!

“Na minha carreira, um ídolo, um orientador e até patrão… Lição de espontaneidade, alegria, capacidade de improviso, domínio de cena, liderança… Senhor do estúdio, das câmeras e da plateia! Tive muitas aulas com ele a cada participação em seus programas. Aprendi muito com o Silvio, mas é impossível assimilar tudo, porque ele é de uma espécia rara: a dos que já nascem sabendo!” — Sônia Abrão

 

“Na década de 1970, assistia aos programas do Silvio Santos pela janela, olhando a televisão dos vizinhos, porque minha família não tinha condições de ter aparelho próprio. Lembro que, quando me chamaram no SBT, no início de 1993, fui contratado e, logo no primeiro dia, já conheci o Silvio. Fiquei ansioso, porque não estava preparado para o encontro. O Silvio é mais do que um patrão; é um pai. Todos os dias com o Silvio são marcantes. Todos sentem isso, até pessoas que são falantes e abertas ficam mais quietas perto dele, porque ele tem uma presença forte.” — Sobral, segurança do SBT