Sobre líderes, panelas e barcos

O bom líder consegue resultados positivos sem ser odiado, mas também não busca apenas ser amado

Você já deve ter visto em sua vida algumas definições de liderança. Em todas elas, deve ter encontrado verbos como conduzir, inspirar, servir, orientar, influenciar, persuadir. Estes verbos estão sempre relacionados a palavras como objetivo, alvo, meta, resultado, missão, visão, sonho.

Pessoas que querem ou precisam (ou os dois, preferencialmente) alcançar algo para si mesmas, e/ou para suas empresas, normalmente conseguem quando têm bons líderes. Sem bons líderes, geralmente dá tudo certo:  a gente tem ideias, corre atrás, começa e executa super bem, mas só nas primeiras semanas. Depois, descambamos para nossa zona de conforto, misturada com nossa falta de disciplina, colocamos um pouco de procrastinação em tudo que odiamos fazer, e permitimos muitas distrações que nos distanciam do objetivo – aquele que queríamos e precisávamos tanto.

E, pra piorar, ainda explicamos direitinho a razão pela qual não fazemos o que tanto precisamos fazer.  Por isso, muitos de nós ainda precisamos do professor para estudar, do chefe para trabalhar com foco nas metas, do personal trainer ou do app para mantermos a disciplina na atividade física, do pai, do amigo, da esposa… Precisamos de alguém neste mundo para nos lembrar o que temos de fazer regularmente para ser (ou ter) o que queremos.  Os disciplinados precisam menos. É, Renato Russo já dizia que disciplina é liberdade.

Assim, sabemos que o bom líder não pode ser fraco, omisso ou covarde. Senão ele vira figura decorativa com aquele salário irritante e não serve pra nada disso aí. Ele precisa se posicionar, expor o que pensa, provocar a ampliação ou a mudança de modelos mentais, e até incomodar seus liderados ao dar desafios.

O bom líder consegue resultados positivos sem ser odiado, mas também não busca apenas ser amado. E ele não pode exagerar. Esse é meu principal aprendizado. Em 25 anos como sócia-diretora da Companhia de Idiomas, tendo iniciado esta jornada aos 22 anos, sei que às vezes aumento o fogo para ver se a comida fica pronta mais rápido. E, quem cozinha sabe, a comida pode perder os nutrientes, ficar sem sabor ou queimar mesmo.  O líder super acelerado pode perder gente boa pelo caminho.  No entanto, esse receio de acelerar demais não pode nos paralisar, a ponto de nunca acendermos o fogo.  Tem de ter pegada forte, tem de botar a água pra ferver, senão morremos todos juntos, abraçados, ainda mais em um país onde a água sobe rápido.

 

Ando aprendendo que o bom líder precisa, acima de tudo, se mostrar imperfeito como é.  Por isso, não cabe o muitas vezes cômodo silêncio. Não devo ter medo de que descubram minhas imperfeições, minhas limitações, o meu não-saber. Esse medo pode engessar minhas ações, silenciar minha fala em uma reunião complexa, prestando um desserviço ao time, que fica desorientado pelo silêncio na hora errada. Se estamos em um barco e o líder não dá a rota, não combina o ritmo da remada, não organiza a viagem, nem ao menos consulta o time sobre novas técnicas na turbulência… nos cansamos todos de tanto remar e não saímos do lugar. Ou somos arrastados pela correnteza. Ou afundamos mesmo.

O bom líder incomoda mas não humilha. Sabe mas pergunta. Não sabe e ouve. Rema junto, todo o tempo, incansavelmente. E ainda puxa uma canção pra sermos felizes no caminho .

Rosangela Souza é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas e ProfCerto