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Como é trabalhar em uma empresa indiana

Como é trabalhar com indianos e outras nacionalidades no Brasil?

Nasci no Canadá, morei nos Estados Unidos e me mudei para o Brasil há 9 anos. Atuando na área de Recursos Humanos, minhas experiências multiculturais se ampliaram ainda mais quando assumi a posição de Head de Recursos Humanos na Sterlite Power, uma companhia líder de transmissão de energia na Índia que tem conquistado uma fatia expressiva do mercado brasileiro desde abril do ano passado – até o momento, já temos 10 projetos em andamento e com o primeiro prestes a ser entregue com mais de 2 anos de antecipação ao prazo previsto pela ANEEL, sinal de que nossa integração está funcionando.

Como a primeira funcionária da operação aqui e responsável pela contratação de mais de 100 colaboradores, testemunhei de perto as lendas e mitos que rondam a visão dos brasileiros sobre “uma empresa indiana”. Boa parte da insegurança nasce de estereótipos e conceitos pré-definidos, de ser uma empresa machista, com supervisão exagerada, pouca autonomia e muitas horas de trabalho, incluindo finais de semana. Posso afirmar com segurança: a prática é o oposto. Eu mesma desconhecia a cultura, tinha dúvidas sobre como seria nossa interação por eu ser mulher, e, para minha surpresa, fui recebida por um time acolhedor e pertenço a um ambiente que promove a integração e respeita a diversidade.

Em uma empresa cujos valores que norteiam o negócio são Inovação, Impacto Social, Respeito e Diversão, não é de se admirar a rápida identificação entre brasileiros e indianos. Além disso, existem muitas semelhanças entre nós. Embora muito se fale sobre as diferenças culturais, os dois povos têm pilares parecidos, valorizam a família e possuem um espírito festivo. Sanjeev Pandey, engenheiro da Sterlite Power, chegou ao Brasil há 6 meses, e é um exemplo dessa similaridade. Quando questionado sobre como foi recebido, ele ri: “acharam que eu era brasileiro e estava falando inglês de mentira, porque fisicamente parecia um brasileiro, o que quer que isso queira dizer, já que aqui tem tantas etnias e estilos. Meus colegas de trabalho são amigáveis e engraçados. Me sinto em casa”, completa.

Para ele, chamou a atenção como as férias funcionam e, em especial, as pontes entre os feriados. “Na Índia você também tem direito a 30 dias de férias, mas elas devem ser tiradas em semanas, separadamente. As folgas existem somente nos feriados, seja ele em uma terça ou quinta-feira, então a emenda entre esses dias foi uma surpresa boa”, diz. Quando conversamos sobre diferentes lideranças, ele e eu concordamos: é algo que varia mais de pessoa para pessoa do que de nacionalidade para nacionalidade. Afinal, as contratações se dão por habilidades e competências – e não por região.

Aqui, acreditamos no poder da diversidade, mais do que cultural, pois respeitamos cada indivíduo como uma pessoa especial, onde cada opinião conta, mas especialmente na diversidade de pensamentos, afinal de contas, se todos pensarmos igual, quem irá inovar?

Monique Almeida, analista de supply chain, traz o contraponto de uma brasileira que trabalha com indianos, sendo as suas principais interfaces – seu par e seu gestor – de lá e residentes aqui. “Eu tinha uma visão totalmente diferente da que eu tenho hoje. Tinha a impressão de que indianos eram muito fechados, só trabalhavam entre eles, que seria difícil uma aproximação, mas logo no primeiro dia vi que eles são receptivos, atenciosos e respeitam bastante a hierarquia. Meu par, por exemplo, só dividiu algumas informações de trabalho depois de eu estar alinhada com nosso gestor. Com o passar dos dias, já ficamos mais próximos, falando inclusive sobre a vida pessoal”, conta.

Christiane Cralcev, Gerente de Comunicação, recém-chegada no time, também teve seu momento de encantamento com a empresa logo nas primeiras semanas de integração: “Quando fui contratada pesquisei bastante sobre a empresa e fiquei muito impressionada com um projeto de transmissão de energia que cruzava a região da Caxemira, na fronteira da Índia com o Paquistão, um território de conflitos socioculturais, geografia acidentada entre outros desafios que foram solucionados com o uso de helicópteros para o transporte dos equipamentos e montagem das torres, preservando a mão de obra humana e a tração animal e com todo o cuidado ambiental, levando energia pela primeira vez a comunidades isoladas. Achei fascinante, mas nunca imaginei ver aquilo de perto. Pois qual não foi minha surpresa de que, além de fazer minha integração com o time da Índia, nos escritórios de Mumbai e Delhi, onde estão meus pares e reportes indiretos, fui convidada a visitar o projeto que conheci no National Geographic e me vi dentro dele, com todo o propósito que nossos valores representam?”, conclui.

Temos uma grande interface com a Índia, eu mesma já estive lá, em um ano, três vezes. É uma viagem longa, mas um investimento valioso em termos de construção de relacionamentos, troca de ideias, construção de parcerias e alinhamento de projetos que precisam andar em paralelo nos dois países, mas também tropicalizamos muitas atividades, respeitando a geografia de onde estamos, valorizando a criatividade e a liberdade para o trabalho em equipe.

Somos bem focados em entrega de resultados, e além disso, existe o desafio da diferença do fuso horário, de mais de 8 horas, então, a gestão do tempo é fundamental e ajuda os brasileiros a se organizarem melhor, pois sabemos que não é possível resolver as coisas de última hora quando em um país é dia, e no outro, é noite. Os almoços, por exemplo, são um momento de troca de experiências e tentamos usar a oportunidade para descobrir o que é sagrado para eles ou mesmo seus hábitos alimentares. Eles [os indianos] não comem carne vermelha, porque acreditam que a vaca é um animal sagrado, e alguns são vegetarianos ou veganos, mas não se importam se nós comemos nem nos julgam por isso.

Como nossos projetos têm avançado bastante e fazemos questão de celebrar nossas conquistas, promovemos happy hours nessas ocasiões para integrar ainda mais os times, prática semelhante na Índia, onde também percebemos que eles gostam de provar novos sabores, são bem abertos a testar, além de serem curiosos sobre o nosso idioma e costumes.

De lá para cá

A Sterlite Power já conta com 109 funcionários – sendo 30% de mulheres e apenas 6 indianos – e promove treinamentos de forma regular e, mais intensamente, na chegada desses colaboradores ao país. O foco desses treinamentos está em promover a integração de normas e procedimentos de trabalho. Também temos treinamentos para os funcionários brasileiros sobre a Índia, mas muito mais do que focar nas diferenças entre os dois países ou na construção cultural de cada um deles, enfatizamos a cultura da empresa. A cultura corporativa deve sobressair – e assim tem sido. Procuramos conciliar o melhor dos dois mundos e se isso for comemorar Diwali e Carnaval, tudo bem.

Quando pensamos sobre a adaptação de um estrangeiro ao mercado de trabalho brasileiro, tanto Sanjeev quanto eu nos deparamos com alguns hábitos não tão comuns lá fora, mas enraizados aqui: os cinco minutinhos de atraso, já tão normalizado no país, e o warm up das reuniões que começam com um cafezinho, passam por assuntos triviais até se chegar ao assunto-foco. Outra característica que chama atenção é que o brasileiro é tátil, encosta, abraça, dá um, dois, às vezes até três beijinhos. Par quem chega de fora e de uma cultura diferente, isso pode ser assustador e demanda um tempo até acostumar, mas todos levam na brincadeira e acaba sendo motivo para explicarmos uns para os outros as diferenças culturais. Outro ponto – e que para mim, sobre a perspectiva de RH, tem sido um exercício – é a dificuldade dos brasileiros e indianos em receber feedbacks diretos ou mais duros. Desmistificando a ideia de que são culturas muito diferentes, até nisso as duas se parecem.

O saldo é que as diferenças são muito mais estruturais e fundamentadas na história e constituição dos países do que na realidade do dia a dia de trabalho e de convivência. Prova disso foi o Team Summit que promovemos recentemente. Um dos exercícios, baseado no modelo Hofstede, que ajuda a entender as diferenças culturais, mostrou que os funcionários das diferentes nacionalidades se encontram em um ponto convergente. Isso reforça nosso empenho em estimular um olhar sem julgamento, interessado e respeitoso para outras pessoas, comportamentos e culturas.

Aprendemos juntos, viemos para o Brasil pois identificamos muita sinergia entre os mercados, reunimos os melhores talentos para que cada um, entre erros e acertos, possa construir o melhor, em uma cultura integrada, unindo forças para enfrentar os maiores desafios da transmissão de energia, contribuir para o desenvolvimento do país e viver todo esse propósito.

Andrea Keen Souza é Head de Recursos Humanos da Sterlite Power no Brasil

 

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