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Coronavírus acelera mudanças no trabalho

Um óbvio impacto está na aceleração da adoção do trabalho remoto

Eventos imprevisíveis e de alto impacto, como o Covid-19, revelam muitas das nossas ineficiências e vulnerabilidades, além das mais visíveis que estamos lidando no curto prazo – como milhares de infectados e mortos, bolsas de valores despencando, voos cancelados, entre outros. Ainda existem muitas perguntas sobre o que irá acontecer como, por exemplo, a multiplicação do vírus em países com temperaturas mais quentes. Mas, as consequências em outras áreas das nossas vidas já são visíveis e dependendo do quão longo ele estiver presente, outras deverão aparecer.

Muitas mudanças representam oportunidades. Um óbvio impacto está na aceleração da adoção do trabalho remoto: em apenas um dia uma empresa de mídia americana encomendou 2.500 laptops, antecipando em um ano o plano já existente de trabalho remoto – isso sabendo que o prazo de entrega aumentou de uma semana para 50 dias por conta do vírus. As ações da Zoom, empresa de videoconferência, subiram quase 80% em poucas semanas.

Um banco global estabeleceu um dia da semana onde todos vão ter que trabalhar de casa para aprender a operar 100% de forma virtual. Mas trabalho remoto não é só instalar softwares, existem implicações relativas à segurança de dados, disponibilidade de sistemas, arquitetura de servidores, que requerem investimentos pesados.

Também esquecem que é um processo de aprendizado que requer mudança de hábitos e rotinas, o que não é simples para um país relacional como o Brasil, onde a confiança se estabelece pela proximidade e linguagem corporal. Culturas empresariais que já se acostumaram saem na frente. Mas, as oportunidades não parecem boas para todos. A indústria de alugueis comerciais teme o efeito da mudança de hábito na demanda por metros quadrados de escritórios.

Outras áreas já estão se adaptando. Uma maior descentralização e dispersão da cadeia de suprimentos é uma das primeiras medidas que muitas organizações estão tomando. A vulnerabilidade da concentração de manufaturas na China ficou evidente com a explosão do vírus no país. Podemos esperar também a aceleração na adoção de educação remota, assim como serviços on-line, virtuais e de realidade virtual, além de inovações nas áreas de eventos.

Mas, existem aspectos mais delicados. Um deles tem a ver com a constante relativização e reduzida credibilidade da informação, graças ao efeito polarizado das mídias sociais. O risco é maior do que votar na pessoa errada. O que se fala sobre não entrar em pânico é dúbio: a mensagem que prevalece é a de que “somente” 1% a 2% morrem é inconsequente. Ela não considera a velocidade de transmissão, o grau de contaminação, que uma em cada seis pessoas que contraiu o vírus fica hospitalizada em estado crítico ou morre e que para idosos as chances de falecimento estão acima de 15%.

O exemplo da Lombardia, na Itália, ilustra bem: os primeiros 17 casos foram registrados no dia 21 de fevereiro. Hoje, já são mais de 10 mil casos com quase 700 mortes, os hospitais locais estão saturados e há pouca disponibilidade de profissionais de saúde – nessa área sabemos das limitações do Brasil. Em 2019, no segundo pior ano da dengue, 754 pessoas morreram no Brasil. A Itália alcançou esse número com o Covid-19 em menos de três semanas, mesmo isolando a população.

A atitude de algumas empresas brasileiras de fechar escritórios quando os casos foram identificados é prudente e louvável. O ambiente de negócios é altamente relacional e fácil vetor de contaminação. Delicadas serão as consequências econômicas. Em um contexto de baixo crescimento e balanços de pagamentos e patrimoniais frágeis, pouco se tem discutido sobre os ajustes que países e empresas terão que fazer para se adequar às novas condições econômicas. O maior impacto será no desemprego e na desigualdade. Reduzir juros já baixos não vai ajudar muito. Oportunidades empresariais fazem mais sentido em ambientes de prosperidade. Pânico talvez não seja a palavra certa, mas deveríamos estar bem preocupados.

Claudio Garcia, Vice-Presidente executivo de estratégia de desenvolvimento corporativo da consultoria LHH baseado em Nova York

 


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