Empreendedorismo

Ganhei uma demissão de presente de aniversário

Cinco anos se passaram desde aquele dia tumultuado. Dia quatro de agosto de 2015, o dia em que seria demitida da maneira mais lamentável já vista na minha experiência profissional

Era uma segunda-feira de agosto. Não estava quente, tampouco fazia frio. Quatro dias antes eu havia recebido uma ligação completamente estranha do meu chefe. Na ligação fui comunicada sobre uma reunião emergencial, em Alphaville (local onde era a sede da empresa), às 9h da manhã.

Como era uma gerente, e as reuniões seguiam um protocolo, questionei ao meu gestor se precisava preparar algum material para a tal reunião. A resposta foi um seco não. Tatiana, não há com o que se preocupar, afirmava a voz do outro lado da linha.

Eu sabia, de algum modo inconsciente, que não era verdade. Havia com o que me preocupar sim! Talvez fosse o uso do Tatiana, ao invés de Tati. Lembro dos meus pais me chamarem pelo nome inteiro somente quando o assunto era muito sério ou se estavam bravos. Essa lembrança provavelmente sempre me fez preferir ser chamada pelo nome reduzido.

Autoconhecimento e sexto sentido

Há muitos anos descobri em mim uma espécie de sexto sentido. Muito mais aguçado que o da maioria das pessoas ao meu redor. Lembro de estar no carro, com um dos vendedores do meu time quando atendi aquela ligação, dias antes do fatídico quatro de agosto. Voltávamos de uma visita a um cliente importante.

Provavelmente minha linguagem corporal comunicou ou revelou muito mais do que meu silêncio após desligar o telefone. O que houve Tati, interrogou o membro do meu time! Eu respondi lentamente, quase em câmera lenta: acho que serei demitida na segunda. Ele morreu de rir e foi super enfático, quase dando uma ordem: deixa de ser paranoica, você é a melhor gerente desta empresa.

Enquanto ele dirigia de volta para um CD na Vila Olímpia, sorria e balançava a cabeça, como se pensasse, como é maluca esta minha chefe. Ele riu, praticamente incrédulo com a minha frase. Ai, ai, quem entende vocês, suspirava ele!

Meus pensamentos seguiam longe, mas eu não expressava verbalmente uma só palavra. Uma certa reflexão me veio à mente: pessoas que batem muitas metas e brilham demais costumam chamar a atenção e incomodar muita gente.

Sabe a lenda da cobra e do vagalume? Aquela onde a cobra persegue incansavelmente um vagalume, mesmo ele não sendo da sua cadeia alimentar, só por não suportar vê-lo brilhar? Pois é, aprendi a notar que isso também acontecia na vida real, e com mais frequência do que imaginamos.

Quando cheguei em casa naquele dia não pensei em outra coisa. Rapidamente corri para o quarto, troquei o uniforme pela roupa de corrida, calcei um par de tênis e dirigi até o parque Ibirapuera. Tinha descoberto naquele local o meu refúgio dentro de São Paulo. O ambiente onde conseguia colocar qualquer pensamento aleatório em ordem.

Já me conhecia bem a essa altura. Pouco mais de 3 anos de psicoterapia já faziam parte da minha bagagem de vida. Sabia claramente que alguns sentimentos favoreciam treinos de tiro. Aqueles onde o objetivo era fazer muita força, até levar o corpo à exaustão. Elevar os batimentos cardíacos à máxima potência fazia jorrar uma dose de adrenalina descomunal na corrente sanguínea. Era disso que eu precisava naquele dia: chegar no limiar da dor física causa pelo excesso de esforço na corrida.

Ao final do treino encontrei alguns amigos no posto de hidratação da MPR, minha assessoria esportiva desde 2012. Relaxei um pouco conversando com pessoas queridas do time e depois rumei de volta para casa.

Era a hora de pensar próximos passos

Tomei uma bela ducha quente, abri a adega e escolhi um vinho. Não me lembro ao certo o que jantei, ou mesmo se jantei. Nas horas seguintes me coloquei a fazer uma análise do que se passava internamente. Álcool e endorfina juntos deram uma certa impulsionada na tal paranoia declarada pelo meu vendedor horas atrás.

De repente parei, decidida! Ok, se estou tão certa que serei demitida, o que fazer a partir de agora? Bom, se haverá mesmo uma demissão, então talvez não deva me esforçar tanto no próximo dia útil que me resta nesta empresa. Sim, era um momento de dizer sim para mim e não para o outro, como já havia aprendido na terapia.

Decidi separar a sexta-feira para me preparar e aceitar o anúncio de segunda de forma madura. Por mais contestável que pudesse parecer, estávamos no meio de uma crise gigantesca na construção civil.

Diversos players do setor haviam sido presos. O cenário era ainda pior para a minha antiga empresa, que sofria por questões cambiais, importando produtos em franco suíço para ofertar no mercado brasileiro. Eles estavam sofrendo horrores, principalmente a alta liderança, que aparentemente estava zero preparada para lidar bem com crises.

Lembranças da crise em 2008

Eu já tinha experimentado uma reestruturação em 2008, na época em que tivemos a quebra do Lehman Brothers. A ligação de 2015 parecia um déjà-vu de 2008.

Em 2008, numa mesma quinta-feira, soube por uma ligação de um par, que meu chefe viria visitar a minha unidade na próxima segunda. Coincidentemente, também dia 04, mas era novembro. Morava em Salvador e meu gestor em Fortaleza.

Na época, minha relação com meu chefe era de extrema confiança e amizade (ainda é assim até hoje, quase 12 anos depois). Sabia que ele não viria a Salvador sem me avisar, sem combinarmos uma agenda. A visita surpresa provavelmente não era para me dar boas notícias.

Nos quatro meses anteriores eu recebi instruções muito diretas da alta gestão. Vinha desligando membros do time com regras definidas pela cúpula. Primeiro quem tinha até três meses de casa, no segundo mês quem tinha menos de um ano, no terceiro mês quem não batia metas e assim chegavam os direcionamentos.

Depois de encerrar o contrato de vários membros da equipe, talvez tivesse chegado a minha vez de partir. Essa quase certeza parecia até o apocalipse anunciado. Minha intuição já dava sinais de ser uma boa conselheira naquela data. Eu estava certa! Seria demitida.

Mais uma vez o sexto sentido

Qual a vantagem de ter uma clareza tão forte sobre o futuro? Conseguir frieza para planejar! Tive alguns dias para me preparar, levar objetos pessoais para casa como quadros e livros. Aquela sala havia sido meu segundo lar durante mais de 15 meses. A decoração tinha a minha cara. 🙂

Coordenei alguns cafés cordiais no dia seguinte, mesclando parceiros de negócio, concorrentes e clientes. Para algumas pessoas apenas fiz uma chamada telefônica, ainda muito discreta sobre visão de mercado para os próximos meses. Com os que me senti mais confortável, cheguei a mencionar um possível encerramento de contrato na semana seguinte. Estava plantando sementinhas importantes e rapidamente.

Organizei meus arquivos, fiz backups que considerei necessários e aguardei a chegada do chefe na segunda. Minha lembrança era de serenidade. Meus resultados entregues até ali já tinham chamado a atenção da concorrência. Pelas ligações feitas na sexta senti que seria “disputada” no mercado e isso me encheu de confiança.

Eu costumava chegar na filial por volta das 5:45 da manhã. Gostava de acompanhar o início da operação, cumprimentar motoristas, desejar um bom dia de trabalho. Sabia que esse gesto simples causava um super impacto positivo no time, que estava sempre motivado e engajado.

Fiz uma breve reunião em pé no pátio, desejei uma boa semana a todos e entrei para a minha sala. Era um espaço grande, com uma janela ampla, toda de vidro, por onde conseguia avistar boa parte do movimento no pátio, balanças e oficina. Sempre me pegava apreciando caminhões e corpos se locomovendo pra lá e pra cá.

Por volta das 9:30 avistei meu chefe passando em frente à minha janela. Poucos segundos depois ouvi uma leve batida na porta. Era ele! Levantei da minha cadeira e fui até sua direção para dar um abraço apertado. Expressei um gesto de curiosidade. A que devo a honra da sua visita surpresa? Good news? Interroguei.

Ele, meio pálido, meio que suando frio, me convidou para sairmos e tomarmos um café juntos em uma padaria como sempre fazíamos. Mas eu sabia que agora era diferente, ele não tinha me avisado sobre sua chegada. Eu já estava com uma espécie de “piloto automático” ligado. Respondi, com um certo ar de provocação: temos muito trabalho a fazer, vamos deixar o café para outro dia.

Novos caminhos estavam por vir

Ele insistiu: bora tomar um café moça (como me chamava quando estava bravo). Eu bati o pé que não e pude perceber a sua angústia. Parecia que nós se formavam dentro da garganta dele. Foi então que o encarei, com um olhar quase fuzilante, olhando fixamente dentro dos seus olhos: você veio me demitir, não foi?

E a primeira lágrima escorreu dos seus olhos. Ele havia tentado defender minha permanência por meses, mas alguns cargos estavam sendo extintos a partir daquele dia.  Juntos havíamos quebrados recordes históricos sucessivos na operação da unidade de Salvador. Foi a melhor performance da minha carreira até hoje.

O Ebitda da minha filial cresceu 9x durante a minha gestão. Era a primeira mulher a ter conduzido uma unidade de negócios, principalmente no nordeste. Aquilo me fazia transbordar de orgulho e satisfação. Minha equipe então? Como eu amava aquelas pessoas simples, humildes, algumas mal sabiam ler. Mas todas me respeitavam de uma forma tão profunda que até hoje meus olhos se enchem de lágrimas ao lembrar.

Dias depois chegou a surgir uma tentativa de alocação em uma fábrica de cimentos em Sobradinho – DF. Era para uma outra posição. Viajei para Brasília, fui visitar a unidade, conhecer membros do time e a possível futura gerente. Mas já era tarde demais para eles.

Eu já tinha outras cartas na manga e algumas propostas muito mais interessantes na mesa, todas para permanecer em Salvador. A que aceitei começou a ser articulada no mesmo dia em que recebi o aviso prévio. Sai do escritório e apenas me desloquei menos de 200m para tomar um café na vizinha, a concorrente Cimentos Portugal.

Uma grande escola

A Votorantim talvez tenha sido a minha melhor escola profissional até o tal dia 4/8/2015. Eu amei e me dediquei àquela empresa como se fosse minha. CPF e CNPJ muitas vezes se confundiram. Como minha saída se deu no meio do expediente, não consegui me despedir no time operacional.

No outro dia, recebi uma ligação apavorada do então ex-chefe. O time se recusava a ir para a rua sem me ver. Fizeram uma espécie de greve, isso mesmo que vocês estão lendo: greve!. Me apressei em voltar na unidade e ter uma conversa séria com eles. Parecia uma mãe dando bronca nos filhos. Eram todos uns marmanjos, gigantes, fortes e eles choravam, diziam que não queriam trabalhar com outra líder, que queriam a mim.

Foi a maior certeza que tive na vida de que tinha feito tudo certo até ali. Aqueles corações tão abertos e espontâneos diziam muito mais que as palavras poderiam expressar.

Impossível negar que a saída foi dolorosa. Lembro de ter passado dias chorando, como se estivesse em luto, e estava. Aquele espaço tinha deixado de pertencer a mim.

Nos anos seguintes receberia convites para voltar ao time, à empresa, por mais de uma vez. Mas eu havia colocado um ponto final naquela história de amor.

Meu querido chefe e amigo, já em outra empresa, também me convidaria outras vezes para compor o time dele. Sonhávamos em juntar o “dream time” de novo. A última vez que ele me fez um convite, muito tentador por sinal, foi em 2019, menos de 30 dias antes de assinarmos o contrato de investimentos entre Vittude e Redpoint Eventures. Definitivamente tinha me descoberto como empreendedora.

Voltando a agosto de 2015

Um filme passava na cabeça. Já tinha sido demitida uma vez. A velocidade com a qual antecipei um movimento havia assegurado organização e um plano de ataque. Em 2008 recebi uma proposta para assumir um cargo mais relevante, ganhando 50% a mais do que no posto anterior.

Tinha apenas 3 dias para agir. Como era gerente de vendas, não tinha uma agenda fixa no escritório. Logo no início da sexta-feira cancelei as poucas reuniões que tinha e trabalhei de casa.

Repeti o protocolo de anos atrás: organizei pastas (a digitalização havia facilitado muita coisa), fiz novamente backups de coisas pessoais e retirei todos os arquivos que não eram sobre trabalho do equipamento que pertencia à empresa. Deixei meu notebook pronto para ser formatado. Fiz o mesmo com os contatos do celular.

Acionei algumas pessoas importantes, do meu networking mais próximo, sinalizando um possível interesse em avaliar novos desafios. Ao contrário de 2008, tive um final de semana ligeiramente apreensivo.

Na segunda estava em Alphaville às 7:30. Pouco ansiosa? Quase nada rs. Aguardei a chegada do meu então chefe respondendo e-mails.

Quando ele chegou fui convidada para ir até sua sala, o fim foi curto e rápido, de longe não se podia comparar o tratamento com a humanidade recebida em 2008. Muito pelo contrário. Meu chefe mal olhou para mim, estendeu uma carta impressa com o aviso prévio, me deu poucas explicações coerentes e disse que meu contrato de trabalho estava rescindido a partir de então.

Employee experience: pra quê?

Por favor, deixe seu computador, celular e chaves do carro aqui. Ainda tentei testá-lo  (devo confessar que não sou muito fácil). Gostaria de fazer um backup do meu celular pois não tenho telefone há anos. A frieza continuava! Ele abriu uma gaveta, pegou um papel A4 em branco e me ofereceu. Anote os números que forem importantes. Me contive para não ser grosseira. Vocês já devem imaginar que minha vontade era falar um bom e velho “francês”.

A postura dele era tão bizarra para uma pessoa em posição de diretoria que apenas sorri, agradeci e entreguei a folha de volta. Não fiquei admirada quando soube que poucos meses depois ele também havia sido demitido.

Depois que assinei os papéis fui comunicada  que um táxi me aguardava do lado de fora da empresa. Eu arrisco dizer que foi o pior comportamento que já vi em uma pessoa em posição de liderança. Um ser completamente despreparado para lidar com gente. Afinal, para que pensar na experiência do colaborador, não é mesmo?

Quando entrei no carro o motorista tentou ser gentil. O moço que me conduziu até minha casa estava ligeiramente curioso para conhecer a minha história e saber mais sobre “aquela empresa”. Para puxar conversa, ele comentou que há algumas semanas estava trabalhando no projeto: levar os demitidos para suas casas.

Como Alphaville era longe, ele tinha tempo de sobra para ouvir as mais diversas opiniões. O fato comum? Todos saiam tristes, é claro, mas estranhamento transtornados. Alguns jogando pragas na empresa, no chefe, se dizendo assediados e até humilhados. Um gerente, colega meu, chegou a compartilhar meses depois, que se sentiu como um bandido no dia da sua demissão. Ele não conseguia entender o que se passava com as pessoas que há poucos dias trabalhavam em harmonia com ele.

Além de triste, eu também estava com uma sensação de anestesia. Como poderia alguém ser tão inábil com pessoas. Me peguei refletindo sobre minha trajetória profissional até ali. Como havia chegado naquela empresa e ficado lá. Há anos, antes mesmo da minha chegada, circulava uma piada interna pela rádio peão.

Naquela organização existiam tartarugas penduradas em postes, que não conseguiam descer sozinhas. Eram tão dedicadas ao corporativismo, que eram preservadas nos postes pelo CEO. Bons entendedores entenderão, uma vez que as tais tartarugas existem em maior ou menor número em muitos ambientes corporativos.

O pior ainda estava por vir

Neste dia algo ainda mais crítico estaria por vir. Horas depois do meu desligamento recebi a notícia de meu pai estava com câncer. Os planos de recolocação caíram por terra. Me senti perdida, desnorteada, sem saber o que fazer.

Meu pai sempre foi meu porto seguro, meu incentivador, meu grande mentor nessa vida. Perdê-lo seria algo incapacitante. Desta vez sim, chorei como se não houvesse um amanhã, com muita força. Esvaziei todo meu estoque de lágrimas.

Era a semana do meu aniversário. Faltavam apenas dois dias para completar uma nova primavera, como dizem. Que baita presente hein!

Tentei dormir, rolei na cama, tive uma noite péssima. No dia seguinte corri para agilizar os exames demissionais. Voaria para a casa dos meus pais no Mato Grosso do Sul tão breve quanto fosse rápido possível.

Descobri que conseguiria resolver a burocracia nos próximos 3 dias. Comprei uma passagem para o dia dos pais, que seria no próximo domingo. Chegava o Natal, mas não chegava o dia dos pais, que agonia.

Tentei cancelar minha festa de aniversário. Como boa leonina, sempre gostei de organizar grandes eventos, reunir amigos, família e pessoas queridas para celebrar mais um ano de vida. A cada ligação explicando o ocorrido, uma insistência para que eu não cancelasse, mas sim que fizesse algo mais íntimo.

Mudei a celebração para um bar mais discreto. Porém, eu estava emotiva demais para festas com toda aquela tempestade armada sobre a minha cabeça. O conforto e o consolo dos amigos mais próximos foram importantes. Eles me ajudaram a não passar por um dos piores aniversários da história sozinha.

Pousei em Corumbá no dia 10/08/2015, dia dos pais. Mal as portas da aeronave se abriram e eu sai correndo, por pouco não atropelei as pessoas. Queria abraçar meu pai. Mal conseguia encará-lo. Fiz muita força para segurar minhas lágrimas. Mal encostei na comida durante o almoço.

Nos dias seguintes me atirei em pesquisas, contatos, consultas, pedidos de indicação e convenci meu pai a se tratar em São Paulo. Morava aqui e sabia que teríamos à disposição o que fosse de mais moderno e eficiente.

A imersão nos serviços de saúde

Voamos meu pai, minha mãe e eu de volta para a capital paulista. Foram meses muito duros. O medo de perder meu pai me assombrava. Incrivelmente quando alguém menciona a palavra câncer, nosso cérebro lê morte.

No dia da cirurgia quem deu um susto foi minha mãe. Ela teve um super pico de pressão alta e quase cheguei a pensar que fosse perdê-la antes mesmo do meu pai retornar para o quarto após a cirurgia. Que fase!

Olho para trás e percebo que foram meses importantes. Eles contribuíram, e muito, para o meu amadurecimento. O tratamento do meu pai foi um sucesso. Ele vende mais saúde que eu nos dias atuais rs.

No começo de outubro de 2015 meus pais estavam de volta ao MS. Era chegado o momento de retomar as rédeas da minha vida profissional. Pensar o que faria dali para a frente. Os meses de tratamento haviam dando uma pausa na minha carreira.

Hora de recomeçar

Confesso que essa interrupção foi crucial para o caminho que trilharia nos meses seguintes. Afinal, desde que tinha me formado em 2003, raramente tinha tirado férias. Poucas vezes tinha um tempo livre para pensar na vida. Não me lembro de episódios de ócio até aquela ocasião.

Eu tinha uma viagem de férias programadas para 10/10. Por insistência do meu pai não cancelei os planos até o último minuto. Ainda bem que eu tinha ouvido seus conselhos. Voei para Chicago, para correr minha segunda maratona. Talvez a melhor e mais consciente prova de corrida que já tinha feito.

Eu devia aquela prova para meu pai. E corri cada um dos quase 43 kms agradecendo pela vida dele, pelo tratamento e pelas dificuldades superadas. Após a prova, curti a cidade por alguns dias com amigos e depois embarquei sozinha para Nova York.

Era minha primeira viagem sozinha, parecia que tudo tinha sido previsto pelo destino. Cinco dias perambulando totalmente só por Manhattan. Passava os dias pensando na vida, conhecendo novos locais, museus, restaurantes, mercados, era incrível a sensação de liberdade naquela viagem.

No primeiro dia aluguei uma bike e pedalei quase 50 kms pela ilha. Que baita terapia, de várias e várias horas seguidas. Ao final do dia me dei conta que a CLT seria aposentada. Aquela demissão mal conduzida havia aberto uma ferida importante, que ficou despercebida durante o tratamento do meu pai.

Viva a liberdade

Durante o passeio, sentada num pier, avistando a estátua da liberdade, afirmei para mim mesma que nunca mais seria demitida na vida. Mas foi muito além disso! Os meses convivendo com líderes tóxicos deixaram boas lições.

Tinha uma clareza muito grande: minha demissão, naquele agosto de 2015, tinha sido um verdadeiro presente de aniversário.

Tive o privilégio de cuidar do meu pai e estar completamente focada em uma só coisa: sua cura. O tempo convivendo com um quadro de adoecimento, as crises de pânico da minha mãe e o meu próprio medo de lidar com a morte também serviram de gatilho para o que estava por vir.

Aquela experiência dolorosa me fez notar gaps relevantes no sistema de saúde. Me dei conta que os serviços médicos prestados no Brasil poderiam ser infinitamente melhores, principalmente no que tange experiência do paciente.

A demissão na verdade me libertou e a imagem da lady liberty literalmente me chamou a atenção para este fato. As frustrações fizeram desabrochar um lado destemido, determinado em ser bem-sucedido. Toda experiência vivida despertou em mim um potencial criativo que jamais imaginei existir.

Mais que isso, me fez buscar por novos conhecimentos de um modo quase insano. Cheguei a ler mais de 100 livros nos 20 meses seguintes. Blog posts, webinars, meetups, mentorias, hackathons? Perdi a conta de quantos participei. Estava decidida: queria empreender na área de saúde.

Aposentando a CLT

Deixava não somente o emprego formal e a CLT, mas também a construção civil de lado. Formação e carreira que sempre gostei de exercer. Ela deixava de fazer sentido. Talvez a corrupção declarada pela lava jato e a última experiência profissional tenham me deixado decepcionada ao extremo com o setor.

Eu sei que meu coração batia forte, muito forte, ao pensar na construção da minha própria empresa. O próximo passo foi pensar num possível sócio. Pensei em vários amigos, mas um, em especial conquistou meus olhares: o Everton. Na época ele era consultor na Falconi.

Nos conhecemos em um bar, por intermédio de amigos, e sempre fiquei admirada com sua capacidade de raciocinar rapidamente. Aliás, amo pessoas inteligentes. Sabe aquelas com cheiro, aparência e gosto de superdotadas, como diz um amigo próximo? Essas mexem comigo, me provocam, elevam minha barra cada vez mais para cima.

Se eu queria empreender, precisava de um sócio com habilidades complementares. Éverton era a pessoa perfeita. Ele era analítico, metódico, organizado, detalhista. Eu era, e ainda sou, a emoção em pessoa. Espontânea, vibrante, adoro falar, conhecer pessoas novas, me atirar ao risco, destemida. Se eu queria voar, precisava de alguém para garantir o aterramento.

O nascimento da Vittude

Everton aceitou meu convite em 6/12/2015. Ali estabelecemos a pedra fundamental da Vittude, que nasceria formalmente em 13/05/2016.

Ainda me surpreendo com nossa capacidade mútua de aprender a aprender. Somos tão dedicados, que lifelong learning se transformou em um dos valores principais da cultura Vittude.

Ter sido demitida foi a catapulta que eu precisava para voar! Para desabrochar, arriscar fundar minha empresa, com a minha cultura, com os meus valores. Livre para brilhar, como o vagalume, mas com a certeza de não ter nenhuma cobra tentando me devorar . Sim, brilhar, era exatamente isso que faltava.

Cinco anos depois daquele fatídico quatro de agosto, me dou conta de quanta água rolou debaixo da ponte. Quanto trabalho duro, suor, lágrimas e sacrifício. Foram mais de 2 anos sem nenhuma remuneração financeira pelo trabalho.

Mês a mês observava minha conta bancária diminuindo e depois entrando no vermelho. Começo muito difícil mesmo. Só quem arrisca empreender no Brasil talvez consiga entender a sensação de perder o sono com medo do caixa acabar.

Mas também não dá para deixar de lembrar das alegrias, do avanço, de ver novos membros chegando, novos investidores, clientes, conquistas. Lembro de cada contrato de investimento assinado com muita alegria.

Serei eternamente grata à Vetor Editora, Ssy Tecnologia, Superjobs Vc e Redpoint Eventures por acreditarem no trabalho desenvolvido pelo Everton e por mim.

E tinha uma pandemia no meio do caminho

E, para levar esse texto para seu rumo final, quem poderia prever uma pandemia em 2020, não é mesmo? Uma crise sanitária que alcançaria o globo e nos colocaria dentro de casa pelos últimos 5 meses.

Período no qual, apesar de toda e qualquer dificuldade, vi a receita da Vittude quintuplicar e nossa equipe crescer de tamanho 4x.

Não fosse aquela demissão, 5 anos atrás, 2 dias antes do meu aniversário, talvez eu não estivesse aqui contando essa mesma história. Talvez tudo tivesse sido bem diferente e eu continuasse acomodada no conforto que a CLT proporciona. É minha gente, a gente aceita cada coisa por medo de ficar desempregado.

Por estes e tantos outros caminhos escritos certos por linhas tortas é que serei eternamente grata ao grande presente de aniversário que recebi em 2015: a minha demissão.

P.S. Nunca se assuste ou tenha medo de presentes esquisitos recebidos da vida. Quando olhamos para trás os pontos se conectam e eles passam a fazer muito sentido anos depois.

Por Tatiana Pimenta, CEO da Vittude


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