Gestores tóxicos

O baixo poder de barganha do trabalhador leva à perda da dignidade e os assediadores se aproveitam do momento

Humilhações, constrangimentos, perseguição, xingamentos, obrigação de atingir metas absurdas. Tais práticas, em um mercado de trabalho onde as vagas são poucas, tornam-se cada vez mais comuns. No Brasil, os processos envolvendo assédio moral cresceram 28% entre 2015 e 2017. O dado do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) abrange a soma das ações no Tribunal Superior do Trabalho (TST) e nas primeiras e segundas instâncias dos tribunais regionais. Segundo o TST, nos últimos três anos, mais de 400 processos de assédio moral foram registrados, por dia, no Brasil.

Mas, o tamanho real do problema é ainda maior, pois grande parte dos assediados não entra com ações por temer que sejam rechaçados no futuro, percam seu emprego e não consigam outra colocação. Ainda mais diante do quadro do mercado de trabalho atual. Segundo os últimos dados do IBGE, cerca de 12,4 milhões de brasileiros estão desempregados. Perder o emprego numa conjuntura como a atual torna-se arriscado, o que faz com que o trabalhador aceite qualquer desaforo para manter sua renda. É a velha visão: se você não quer, tem quem queira. O baixo poder de barganha do trabalhador leva à perda da dignidade e os assediadores se aproveitam do momento.

A Pesquisa Perfil Comportamental dos Executivos, elaborada pela HSD Consultoria em RH com 3.500 profissionais que ocupam cargos de comando em médias e grandes corporações no período de 2014/2017, mostra que 27% demonstram desvio de conduta que resultam em potenciais riscos para as empresas onde atuam. É o que chamamos de gestores tóxicos. São pessoas que acreditam que se baterem as metas e derem resultados positivos à organização, tudo podem. E, de certa forma, isso acaba sendo endossado por muitas empresas, ao menos, de forma velada.

Recentemente um banco fez com que seus gerentes vestissem roupas de cores diferentes de acordo com seu desempenho perante suas metas. Os de vermelho ficaram abaixo do estipulado; os de amarelo, na linha, e os de azul eram os que conseguiram ultrapassar o objetivo. Este caso teve repercussão na mídia, ao contrário da maioria dos constrangimentos vividos por funcionários. Também chamou a atenção da imprensa, os inúmeros casos de empresas que constrangeram seus funcionários a votarem em determinado candidato, o que é ilegal.

Para as mulheres, a situação é mais grave. A última pesquisa da HSD chama a atenção pelo aumento dos casos de desvio do comportamento sexual. A pesquisa anterior apontava que apenas 4% dos entrevistados tinham inclinação a incorrer nesse problema de conduta, enquanto hoje, o percentual praticamente dobrou: 7%. Este tipo de comportamento é mais comum no sexo masculino, que se aproveita de sua posição de superioridade para constranger mulheres que atuam na posição de assistentes.

Não é só no setor privado que os casos de assédio contra mulheres se destacam. A Confederação Nacional de Municípios (CNM) e o Movimento Mulheres Municipalistas (MMM) acabam de lançar uma campanha de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres. A ação tem um olhar direcionado para o assédio moral e sexual no ambiente de trabalho, resgatando o tema da campanha de 2017. Segundo uma pesquisa recente, lançada pelo Instituto Alziras, em parceria com a CNM, entre as atuais prefeitas (gestão 2016-2020), 53% afirmam ter sofrido assédio ou violência política pelo simples fato de serem mulheres. Uma em cada três prefeitas brasileiras mencionou o assédio e violências simbólicas no espaço político.

Mesmo diante das bandeiras levantadas, ainda é possível perceber que, na prática, há uma visão de impunidade entre os assediadores. Por ocupar um cargo importante, o executivo tóxico acredita que pode tudo e que não será denunciado. É um reflexo de problemas que a nossa sociedade tem. Muita gente acredita que ter poder é um salvo-conduto para fazer o que quiser, e a sociedade, de certa forma, endossa isso.

Poucas empresas expressam preocupação com o conhecimento do perfil comportamental de seus executivos e lideranças, não só no que se refere a atitudes observáveis, mas principalmente quanto à sua estrutura de caráter. A omissão nesses casos é um erro grave, mesmo se analisada apenas do ponto de vista financeiro. Além de potenciais perdas por conta de ações trabalhistas, essas práticas acabam por comprometer a parte operacional do negócio. Isso ocorre por conta do clima instalado entre os funcionários. As consequências econômicas são óbvias, mas os prejuízos à imagem institucional da organização e à sociedade são muito maiores.

Por Susana Falchi – CEO da HSD Consultoria em RH