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Hierarquia não precisa significar opressão: liderança consciente em tempos de home office

Mais de dois terços das pessoas já se demitiram por conta do ambiente proporcionado por seus chefes e não pelo trabalho em si

Profissionalmente falando, não existe armadilha pior do que se encontrar em uma empresa com uma liderança opressora, que microgerência suas ações, e como se já não fosse o bastante, ainda não está interessada no seu desenvolvimento.

Essa hierarquia de controle não só intoxica as relações, como também impede que a individualidade, autonomia e liberdade para inovar das pessoas lideradas sejam respeitadas e valorizadas dentro do ambiente de trabalho. À medida que a ansiedade aumenta e a autoconfiança diminui, pensamentos como “eu odeio meu trabalho!” começam a aparecer com mais frequência do que gostaríamos.

Ao criar a HerForce, primeira plataforma de divulgação de vagas e avaliação de empresas voltada para mulheres no Brasil, pude, junto da minha equipe, realizar  uma pesquisa com mais de 1200 mulheres sobre seus ambientes de trabalho e constatamos que experiências profissionais negativas estão altamente relacionadas à falta de autonomia e flexibilidade.

Segundo o Isma Brasil (International Stress Management Association), 72% das pessoas estão insatisfeitas com o trabalho. Já uma pesquisa do Gallup também mostrou que mais de dois terços das pessoas entrevistadas já se demitiram por conta do ambiente proporcionado por seus chefes e não pelo trabalho em si.

De acordo com outro estudo, feito pela Leadership Quarterly e publicado pela Universidade do Estado da Flórida, no qual trabalhadores apontam suas insatisfações com seus chefes, 39% dos trabalhadores disseram que o seu supervisor não consegue cumprir as promessas; 27% afirmaram que o seu supervisor fez comentários negativos sobre eles para os outros funcionários ou gerentes; 24% indicaram que o seu chefe invadiu sua privacidade e 23% disseram que seu supervisor culpava os outros para encobrir erros pessoais ou minimizar a situação.

Uma hierarquia baseada em favoritismo, na qual se procura culpar alguém pelos erros e que não reconhece o trabalho das pessoas, com certeza está fadada a resultados medíocres com baixo engajamento de equipe, performance, inovação e alto turnover.

No entanto, para times que trabalham de forma remota, uma tendência que só cresce, a hierarquia é altamente efetiva e necessária. É claro que dependendo do tipo de liderança, haverá pontos negativos, mas em um plano maior, sua existência é essencial para a coordenação estruturada de contratações, onboarding, gerenciamento de atividades e de como as pessoas trabalham juntas, mesmo não estando no mesmo espaço físico.

Essa modalidade de trabalho é muito comum entre startups, que possuem times tech distribuídos pelo mundo. Muitas pesquisas mostram que o trabalho remoto é o segundo benefício que mais atrai e retém talentos em uma empresa, perdendo apenas para valor de salário. O número de pessoas trabalhando de forma remota no Brasil já cresceu 22% entre 2017 e 2018, de acordo com dados a Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades.

Agora, pense em um ambiente de trabalho onde não existe hierarquia. Onde todos são completamente livres para colocar em prática toda e qualquer ideia. Onde não existe uma figura de liderança para direcionar a equipe por meio de objetivos claros e, principalmente, gerenciar conflitos. Pode ser um pouco caótico, não é mesmo? De fato, talvez possa funcionar em uma empresa com poucos funcionários e por um determinado período.

Em empresas de tecnologia principalmente, é comum ouvirmos durante os processos seletivos e depois nos discursos do dia a dia que os seus negócios são feitos de pessoas, das quais são capazes de fazer o seu trabalho sem gerenciamento, que possuem postura de “dono”, pensam fora da caixa, etc. Toda esta fala é muito atraente, mas parece um pouco contraditória quando temos uma pessoa líder que não entende muito o seu papel. Vale lembrar também que nem todas as pessoas buscam trabalhar totalmente sem supervisão, principalmente no início de carreira, quando buscam alguém como inspiração e fonte de conhecimento.

O papel de uma pessoa em posição de liderança é transmitir a importância da causa em que a equipe está inserida e despertar o melhor, dentro da individualidade de cada uma, para que possa ser compartilhado e transformado em ações dentro de um ambiente diverso e inclusivo, principalmente diante de dificuldades. Na prática, a figura de líder está lá para administrar objetivos comuns, treinar, mentorar, motivar, mitigar conflitos e deixar o time trabalhar.

Os melhores avanços vêm como resultado de um time unido, diverso e empoderado.

Por Silaine Stüpp, especialista em diversidade de gênero, palestrante, profissional de marketing, fundadora e CEO da HerForce

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