Inclusão

Inclusão: empresas dão exemplo e vão além do preenchimento de vagas por cotas

Dados apontam que menos de 1% do total de empregos formais são ocupados por pessoas com deficiência, mas algumas organizações já estão em busca de boas práticas para melhorar esse índice

Segundo o Censo 2010, o Brasil tem quase 46 milhões de brasileiros que se declaram com algum tipo de deficiência, mas dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) mostram que só 486 mil estão empregados em postos de trabalhos formais. Mesmo com a Lei 8.213/91, que prevê que as empresas com mais de 100 funcionários tenham de 2 a 5% de pessoas com deficiência (PCDs) no seu quadro de colaboradores, só 50% das organizações cumprem essa cota, como mostra o Painel de Informações e Estatísticas da Inspeção do Trabalho no Brasil.

Os dados mostram o quanto a inclusão ainda precisa ser debatida nas empresas brasileiras, não só pela questão da obrigatoriedade, mas também pelo diferencial competitivo que a diversidade traz: uma pesquisa da consultoria McKinsey & Company mostrou que as organizações com equipes mais diversas estão 21% mais propensas a ter um lucro acima da média.

Algumas empresas brasileiras já estão dando um bom exemplo de como abraçar a inclusão e a diversidade e estão trazendo boas práticas para o mercado. Conheça algumas delas:

Diversidade no DNA do negócio

Na Pulses, startup que tem soluções de clima organizacional medidos de forma contínua, a diversidade e a inclusão são parte da cultura da empresa. Um dos mantras é, justamente, o “Diversigrowth” – a diversidade nos faz crescer. “É como se tivéssemos vários instrumentos musicais que, sozinhos, não tocam uma bela música. A inclusão é uma forma de trazer sinergia, integração e harmonia, o que vai acabar impactando diretamente no crescimento das empresas. É por meio de uma equipe diversa que temos olhares e opiniões diferentes e ricos que ajudam na inovação”, comenta Michelly Dellecave, CMO da startup. 

Michelly acredita que uma forma de trazer o assunto à tona nas empresas é conversando sobre ele. “Promover discussões e reflexões a respeito dessa pauta é essencial na construção de ambientes de trabalho acolhedores e consideradores. Trazer este tipo de ação para a empresa é ótimo para que gestores e RH possam pensar em práticas para melhorar suas políticas de inclusão”, afirma.

Banco de talentos exclusivo e soluções acessíveis

Na Softplan, uma das maiores desenvolvedoras de software do Brasil, as PCDs têm um banco de talentos exclusivo para se candidatarem, que contempla oportunidades nas áreas Administrativa, Financeira, DHO, Marketing, Desenvolvimento, Projetos, Sistemas, TI e Vendas. A medida surgiu como uma forma de conseguir captar profissionais que geralmente não aplicam para vagas na área em que são capacitados apenas por elas não serem exclusivas para pessoas com deficiência. “Um dos nossos pilares é a valorização das pessoas e temos orgulho de dizer que somos uma empresa que apoia a diversidade e inclusão. Conversando com nossos colaboradores que têm deficiência, percebemos que existe essa tendência, e por isso criamos o banco. Nós queremos tirar esse estigma de que PCDs são pessoas diferentes ou menos qualificadas e verdadeiramente incluir esses talentos que estejam buscando se desenvolver e construir uma carreira”, destaca Tatiana Back, Business Partner na Softplan.

A diversidade na empresa ajudou, inclusive, a promover acessibilidade a partir de um dos softwares desenvolvidos para integrar instituições públicas da Justiça, o SAJ. Marcelo de Souza é deficiente visual e analista de testes de usabilidade na Softplan, e em 2017 foi chamado para ajudar a equipe de suporte numa demanda de um usuário do sistema, também deficiente visual, que não conseguia usar o SAJ, que na época tinha limitações de compatibilidade com os leitores de tela – programas que interagem com o sistema operacional do computador e transformam informação de texto em resposta de voz para que usuários cegos ou com baixa visão consigam se guiar pela tela. Com vontade de ajudá-lo, Marcelo começou a fazer testes na plataforma e formulou o “SAJ Acessível”, voltado para quem tem limitações na visão. O projeto foi aprovado pela empresa e contou com ajuda de William Jesus, desenvolvedor de software e também deficiente físico, para tirá-lo do papel. “A parceria deu certo, porque gostamos de tecnologia e de ajudar as pessoas. Com o SAJ Acessível, os servidores deficientes visuais vão ter mais produtividade, podendo lutar de forma igualitária por ascensão profissional. A Softplan acreditou no projeto, e estamos conseguindo colocá-lo em prática”, comemora Marcelo.

Todas as vagas são abertas para PCDs

Na Involves, empresa de tecnologia que desenvolve soluções em trade marketing, a cultura é voltada para a experiência da equipe. A Gerente de Pessoas, Thuany Schutz, explica que o foco da empresa é oferecer o que cada pessoa precisa para se sentir confortável no ambiente de trabalho. “Uma coisa é convidar para a festa, outra é convidar para dançar. Na Involves, nós queremos que as pessoas dancem com a gente. Para que isso aconteça, cada uma tem necessidades específicas, porque cada pessoa é única.” A Gerente de Pessoas também ressalta que na Involves todas as vagas são abertas a pessoas com deficiência. “Uma pessoa com deficiência não entra na Involves apenas para cumprir a cota legal, ela entra porque acreditamos que ela é a mais qualificada para aquela vaga”, completa Thuany. 

A analista de suporte ao cliente, Thaís Luzia, percebeu isso quando se candidatou a uma vaga na empresa. Thaís tem Osteogenesis Imperfecta, uma doença que faz com que seus ossos estejam mais propensos a fraturas, e, por isso, usa cadeira de rodas. Natural do Rio de Janeiro, ela conta que quando se formou começou a busca por colocação profissional. “Eu fiz vários processos seletivos e geralmente chegava até a etapa final, mas quando as empresas olhavam meu laudo médico, eu era descartada. Eu cheguei a passar em um processo seletivo e ser chamada, mas quando fui até a empresa, o único jeito de chegar ao meu posto de trabalho era por meio de escadas”, conta. Depois de participar do processo seletivo da Involves e ser aprovada para a vaga, mudou-se com a família para Florianópolis, onde fica a sede da empresa. Na Involves, Thaís recebeu todo o suporte para realizar seu trabalho da melhor forma, mas por conta do tratamento de sua doença, ela precisou voltar a morar no Rio de Janeiro. Thaís conversou com a equipe, que apoiou que ela continuasse trabalhando em regime de home office. “Eu fiz o pedido antes do início da pandemia e do home office ser uma prática essencial, e mais uma vez contei com todo o apoio da empresa e da minha equipe”, finaliza. 

 

 


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