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Luta feminina: Código aberto para a igualdade na tecnologia

Diversidade e inclusão não são questões simples com uma solução mais simples ainda

À medida que a luta feminina ganha força em todo o mundo, mais e mais pessoas se engajam nessa batalha. Ainda assim, há um longo caminho para se percorrer. Igualdade de salários, de tratamento e, acima de tudo, respeito irrestrito, são questões em aberto que precisam de muita atenção. As mulheres já conseguiram quebrar muitos paradigmas e garantir seu lugar no alto escalão de grandes corporações, por exemplo. Mas ainda enfrentam desafios para se sobressair em áreas compostas majoritariamente por homens, como é o caso da tecnologia.

Na verdade, quem ainda acredita que o setor é “coisa de menino” desconhece a história da programação. No século 18, Ada Lovelace foi a fundadora da computação científica. Já no século passado, durante a 2ª Guerra Mundial, cinco mulheres foram responsáveis por escrever instruções para o primeiro computador programável totalmente eletrônico do mundo. Em 1974, no bacharelado em Ciência da Computação do IME (Instituto de Matemática e Estatística) da USP, as mulheres representavam 70% da turma. Aos poucos, entretanto, esse cenário foi mudando.

A falta de incentivo desde cedo para que as mulheres optem pela tecnologia, tem sido fator agravante para baixar esses números. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do IBGE, só 20% dos profissionais que atuam no mercado de TI são mulheres. Em gigantes do setor, elas representam apenas 30% dos funcionários. Outra pesquisa recente realizada pela Booking.com em diversos países, incluindo o Brasil, mostrou que 40% das mulheres no setor sentem que as empresas em que trabalham não as valorizam muito nas equipes. O levantamento pontou que a maioria também não acha que as estratégias de RH estão conseguindo apoiá-las.

Acompanhando de perto a evolução dessa curva, algumas companhias têm buscado encontrar soluções para impulsionar o aumento de mulheres nos cursos de TI e, claro, ocupando importantes funções no mercado de trabalho. Embasadas pelos conceitos de cultura aberta e colaborativa, por exemplo, empresas que trabalham com a tecnologia open source têm sido importantes catalisadores desse movimento.

À frente da área de Recursos Humanos para a América Latina em uma das principais empresas desse segmento, posso dizer que, além de um exemplo prático desse posicionamento, tenho podido acompanhar e ajudar outras mulheres a conquistarem seu espaço nesse universo. A companhia possui 40% de lideranças femininas, um reconhecimento ao potencial das mulheres. Além disso, é comprometida com a igualdade de gênero e com a transformação necessária para incluir a todos em todos os processos.

Entre uma série de projetos que desenvolvemos para conquistar a igualdade dentro da corporação está um painel de discussão, no qual compartilhamos os desafios das mulheres com todos os associados da empresa na América Latina. O objetivo é reconhecer histórias de nossas associadas para que possam servir de inspiração para outras mulheres. Também temos outro grupo informal de vice-presidentes do sexo feminino. Nele, nos reunimos para fazer networking, compartilhar insights e solucionar problemas usando nossa experiência. Embora ainda haja espaço para melhora, o que descobrimos é que, juntas, podemos ajudar a empoderar outras pessoas e, mais do que isso, podemos ser poderosos catalisadores para a diversidade, indo muito além de gênero.

A prática do código aberto, que envolve uma série de pessoas trabalhando em conjunto por um mesmo propósito – independentemente de suas diferenças –, mostra que diversidade não é apenas um opcional, ela cria vantagens competitivas. Quanto mais diversos somos, mais conseguimos inovar e contribuir. Essa realidade mostra que boas ideias podem vir de qualquer pessoa, em qualquer lugar, a despeito do cargo ou hierarquia.

Como responsável por pessoas, maior patrimônio de uma corporação, me sinto compelida a desenvolver um espaço de trabalho que seja inclusivo, encoraje o compartilhamento de ideias e a cooperação, criando espaço para todos. Precisamos enfatizar a criação de um ambiente no qual qualquer pessoa sinta-se confortável em contribuir e perceba que suas contribuições são reconhecidas. É nossa obrigação dar voz a todos e ouvir suas colocações.

Estimular esse comportamento não é um desafio fácil. Mas pequenas atitudes do dia a dia e algumas práticas são importantes para despertar em cada um a atenção necessária sobre esse tema. Implantamos, por exemplo, um programa de elogios mútuos, no qual cada colaborador da companhia recebe trimestralmente um número de pontos para distribuir entre seus colegas. Eles precisam escolher aqueles que melhor representaram os valores da companhia naquele período. Ao encorajar e recompensar estes comportamentos uns nos outros, nós reforçamos e fortalecemos a cultura de inclusão e igualdade que nos torna bem-sucedidos.

Diversidade e inclusão não são questões simples com uma solução mais simples ainda. Esses conceitos envolvem um caminho, uma importante trajetória pavimentada por ações diárias e perenes. São eles também que oferecem opções fora da caixa para os desafios de disrupção e necessidades de inovar continuamente, sendo as chaves para a revitalização e renovação das organizações.

Nosso papel está em sempre refletir e se comprometer a desafiar estereótipos, lutar contra vieses, construir empatia em relação a diferentes perspectivas e celebrar as contribuições de todos. Só assim, a igualdade e a diversidade vão ganhar espaço e se tornar capazes de fazer com que possamos nos desenvolver, atingindo nosso potencial máximo. Um depende do outro e  juntos somos melhores!

Genice Amaral é Head of Human Resources LATAM na Red Hat


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