Opinião

Mais que sucesso, propósito

Há uma vontade coletiva em encontrar uma conexão com o trabalho maior do que simplesmente ser bem-sucedido, ser reconhecido pelas suas entregas

Nos últimos anos, estar numa sala de entrevista de emprego tem sido um privilégio, uma oportunidade de aprendizado e crescimento ao observar a riqueza e profundidade dos questionamentos de executivos das mais diversas formações, sejam elas acadêmicas, profissionais ou pessoais.

Há uma vontade coletiva em encontrar uma conexão com o trabalho maior do que simplesmente ser bem-sucedido, ser reconhecido pelas suas entregas, atingir posições ainda maiores de liderança dentro das organizações. Pessoas buscam preencher uma lacuna, que antes talvez ficasse esquecida ou engavetada, que é contribuir para algo maior, deixar um legado. E hoje chamamos isso de propósito.

É possível que já tenhamos ouvido uma centena de vezes frases como “estou em busca de um propósito” e “preciso encontrar algo que me preencha e faça feliz”. E muitos devem pensar que essa vontade vem dos que ingressam no mercado de trabalho, e talvez tenham sido eles que trouxeram um pouco dessa ousadia de comunicar, mas esse desejo está presente na maioria das conversas com executivos que hoje buscam algum tipo de movimento em suas carreiras. Trabalhar por um propósito está ligado a deixar um legado para essa geração e as que estão por vir e entender que tantos anos de dedicação e sacrifícios resultaram em um conhecimento que nesse momento pode ser utilizado para deixar uma contribuição significativa para a sociedade.

Foi assim que começamos a observar dois movimentos importantes no universo dos executivos. De um lado, a busca por oportunidades profissionais que não necessariamente tenham o maior retorno financeiro, mas que os conectem com empresas que apresentam maior engajamento com a sociedade, negócios de impacto do setor privado, setores que naturalmente apresentam essa proposta como saúde, educação e tecnologia.

Por outro lado, há profissionais deixando seus postos executivos e dividindo seu tempo entre conselhos de empresas tradicionais – fomentando um processo de transformação e a oportunidade de tornarem-se investidores de startups nos mais diversos estágios, empreendedores, conselheiros e executivos destes projetos.

Engana-se quem pensa que esse movimento parte dos executivos que estão “em fim de carreira”, até porque não existe fim, nem prazo – já vencemos esses paradigmas. Mas são executivos que estão em amplo crescimento, disputados pelas mais diversas empresas, mas que já não querem viver mais do mesmo: reestruturar outra companhia, remodelar outro time, abrir capital, fechar capital, fazer uma aquisição. Eles querem criar um negócio novo, querem transformar o mercado, querem ser ponto de apoio para formar uma nova geração de executivos oriundos dessas novas inciativas.

O que inibe muitos executivos em realizar esse shift de carreira são os pacotes de remuneração do mundo executivo tradicional versus o modelo das startups, pois nem todo mundo pode se permitir estar exposto a esse nível de risco – sim, esses projetos ainda estão distantes dos pacotes ofertados pelas grandes corporações, apesar do potencial de ganho de longo prazo – mas tratam-se de apostas, investimentos de alto risco.

Nesse sentido, quem ganha são as empresas que estão dispostas a se reinventar, de verdade, criando um ambiente para remodelar suas crenças, seu modelo de negócios: há uma oferta de executivos que estão preparados para conduzir esses processos de mudança, com um pacote de conhecimentos e habilidades diferenciados, e tudo que eles buscam é uma combinação de confiança com autonomia.

Esses profissionais são facilmente reconhecidos dentro das empresas: eles organizaram pequenas revoluções nas áreas que lideram, viraram referência para o mercado, tornaram-se mentores e fonte de inspiração transformando a experiência das pessoas em suas áreas e lideram silenciosamente essa revolução. E, dessa forma, nosso papel como facilitadores desse encontro de carreiras e empresas torna-se ainda mais relevante e ativo – não há mais respostas prontas, elas são construídas e validadas na jornada.

Por Giovana Cervi , sócia da Signium, empresa global de C-level hunting e de estratégias de recursos humanos

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