Comportamento

Meu maior cliente fala comigo por WhatsApp. E agora?

Que tempo bom de se viver, pois a tecnologia está cada vez mais ao nosso alcance

O Whatsapp começou mudando a forma como nos comunicamos com nossa família e amigos. Em seguida, mudou a maneira como trabalhamos. Mais recentemente, ampliou nossos hábitos de consumo. Aqui em Canela, uma cidadezinha de cerca de 45.000 habitantes na Serra Gaúcha, eu já encomendo bolo, agendo manicure e contrato adestrador – tudo por Whats/Zap. Agora é assim.

Então… como já passou a fase da paixão – quando tudo é perfeito, intenso e um pouco exagerado – é hora de pensarmos juntos em algumas regrinhas, para que este relacionamento seja longo e feliz. Para que não banalizemos uma rede bacana, principalmente porque esta rede mistura bem nossa vida profissional e pessoal. A banalização afugenta pessoas interessantes que não têm paciência ou tempo para dezenas de posts repetidos, automáticos e irrelevantes. Como educadores, profissionais de RH, pais, mães, ou simplesmente pessoas de bom senso que queremos ser, temos obrigação de observar e contribuir para o bom uso da internet e suas ferramentas, ao invés de apenas propagarmos banalidades diárias sem o menor senso crítico. Se você acha razoável, continue lendo.

Para começar, sugiro refletirmos sobre dois pontos:

Lembra quando surgiu o email (ok, tem leitor que nem tinha nascido ainda) e recebíamos aquelas correntes, mensagens de bom dia, piadinhas etc? Lembra quando a gente realmente contava “pro Facebook” o que “a gente estava fazendo”? Pois é… acho que estamos nesta fase de encantamento com o WhatsApp.   Poderíamos já entender que não é porque podemos dizer bom dia todo dia para todos os grupos, que isso seja necessário ou até mesmo divertido.  São essas ações automáticas que banalizam a rede. Todos percebem que quem enviou só enviou, não tinha sentimento, intenção ou nada pessoal na ação – foi algo automático.

Outro contexto: você faz parte de um grupo (no whats) de vizinhos para falarem sobre o que está acontecendo no prédio/bairro, resolverem questões internas, convidar para um café, combinar caronas, trocar serviços etc. Ideia super bacana. Só que chegam 345 mensagens lindas de auto ajuda, 50 vídeos engraçadinhos, 30 Bom diaaaaa. As pessoas que querem dar aquela olhada rápida quando dá tempo na hora do almoço, pra ver se tem alguma coisa relevante, não aguentam. Com o tempo, ao perceber que naquele grupo só tem bobagem, param de olhar. E aí, quando alguém coloca algo importante, que era a essência do grupo, a razão pela qual ele foi iniciado, ninguém lê, ou se lê, ninguém responde.

Acho que seria possível diminuirmos as mensagens bonitinhas, aumentando nossa atenção para perguntas e observações reais, escritas pelas pessoas do grupo, resgatando a razão do grupo existir, respondendo quando tivermos o que responder.  Usar o poder da rede de contato estabelecida em um grupo no WhatsApp para se importar com as pessoas, demonstrar afeto, contar algo bom ou ruim que aconteceu e que se quer compartilhar com aquele grupo, resolver questões importantes para um, para dois ou para todos. Assim nos comunicamos.

Todos sabem que podem silenciar mensagens. Mas todos sabem que muitos de nós vamos dar uma olhada em tudo o que foi postado em um grupo considerado importante para nós. Ou uma mensagem que veio de uma pessoa importante para nós. Por isso, novamente, não devemos banalizar.

Mas este assunto está no primeiro item deste texto, ok. Aqui reflito sobre o horário que queremos falar com nossos colegas de trabalho. Em tempos de home office e internet, o trabalho está mais fluido, mas ainda vale entender que “normalmente” depois das 19h as pessoas querem descansar, ficar com a família, ler, conversar com o filho que chegou da escola/trabalho, ou não fazer nada. Então, quem tem uma real urgência pode enviar uma mensagem – se isso foi combinado entre os colaboradores de sua empresa.

Quem não tem uma urgência, pode segurar para o dia seguinte, certo? O que tem acontecido:  você vê que seu colega/gerente/diretor/cliente/fornecedor enviou uma mensagem, e você acaba lendo para ver se não é urgente. Quem enviou, vê que você leu (a não ser que você programe para não aparecer). Se você não responde, porque não muda nada responder no dia seguinte, parece que ignorou. Se você responde mas não era urgente, você está tirando um tempo de sua vida pessoal para o trabalho, sem uma real necessidade. Sei que pode parecer exagero para alguns. Mas para mim, o que pode ser respondido no dia seguinte, deve ser respondido no dia seguinte, se estou ocupada com minha vida pessoal, no meu horário pessoal.

Alguns pensam que não custa nada responder rapidinho o chefe durante o jantar com a esposa, ou o cliente no banheiro, o fornecedor no semáforo vermelho, o colega de trabalho enquanto seu filho fala com você. Mas… será que estamos mesmo dando atenção ao mundo real, às pessoas que estão ao nosso lado naquele momento? Será que este encantamento sem limites pelo WhatsApp, Instagram, Pinterest, Facebook, Youtube etc etc etc, não é uma das causas para aquela sensação de vazio, tão reportada nos consultórios? Uma das causas para o segmento de drogarias ser o que mais tem faturado no Brasil? Para o fato de nos entupirmos de remédios, terapias e tratamentos para nos acalmarmos, para conquistarmos a sanidade e serenidade? Será?

Sim, somos livres. Para falarmos com a tia ou com o cliente na hora que quisermos. Para usarmos tudo o que está ao nosso alcance, para nossos objetivos pessoais e profissionais. Que tempo bom de se viver, pois a tecnologia está cada vez mais ao nosso alcance. Que perigo, pois tudo que é bom e acessível pode invadir nossas vidas aos poucos, sem percebermos e, quando nos damos conta, não somos mais senhores das nossas escolhas, mas sim reféns de nossos vícios.

 

Rosangela Souza é fundadora e sócia-diretora da Companhia de Idiomas.

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