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Mudança na cultura corporativa é essencial para que ações focadas em qualidade de vida no trabalho tenham resultados efetivos

A noção de qualidade de vida no trabalho é muito ampla e abrange várias temáticas, como segurança, saúde e bem-estar, equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional

Quem acompanha os estudos do mercado de trabalho deve ter percebido uma tendência nas pesquisas: para quem está à procura de um emprego, o salário já não é mais o critério exclusivo dos candidatos. Propósito e qualidade de vida entram cada vez mais forte na conta, e isso vem se traduzindo do lado das organizações, entre outras coisas, por comunicação e investimentos fortes em políticas de qualidade de vida.

A noção de qualidade de vida no trabalho é muito ampla e abrange várias temáticas, como segurança, saúde e bem-estar, equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional e sentimento de contribuir a um propósito maior. Quando uma organização decide promover uma política de qualidade de vida, ela passa por um verdadeiro questionamento dos valores e objetivos que deseja alcançar.

Mudança na cultura corporativa é essencial para que ações focadas em qualidade de vida no trabalho tenham resultados efetivos

No entanto, em muitos casos, esse projeto de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) vira atribuição exclusiva do departamento de Recursos Humanos, sem envolvimento de toda a liderança da organização, nem verba ou equipes dedicadas. Nessa configuração, a área responsável se resigna a submeter, bem ou mal, algumas medidas, sem ter os meios de desenhar uma política integrada. Desta forma, os resultados são limitados e podem afetar a credibilidade do programa, reduzindo verbas e adesão da liderança. Alguns exemplos concretos podem ajudar a entender melhor esse vínculo entre qualidade de vida e cultura corporativa.

A questão do tempo

Passamos agora por uma transição entre um mundo onde cada minuto trabalhado é monitorado, registrado no relógio de controle horário, para uma forma mais flexível de organizar o seu tempo: do “happy friday” (que libera os colaboradores mais cedo na sexta-feira) ao home office, são várias as iniciativas para flexibilizar os horários de trabalho e oferecer aos colaboradores um melhor equilíbrio entre vida pessoal e vida profissional, um ponto frequentemente citado nas pesquisas de clima.

Porém, essas ações não podem se limitar a um comunicado soltado pelo RH. Cada gestor de equipe deve abraçar essa iniciativa e pensar de forma concreta a maneira de viabilizar essa proposta, implicando uma transmissão de autonomia ao seu funcionário, em relação a forma de organizar o seu tempo de trabalho. A cultura da marcação de ponto não pode combinar com a flexibilização de horários. Sem essa reflexão, corre o risco de, ou criar uma grande frustração no colaborador que não conseguiu usufruir do novo benefício, ou prejudicar a imagem de quem aproveitou e ficou com a fama de funcionário não comprometido. Da mesma forma, a empresa pode disponibilizar uma sala de bem-estar ou aulas de yoga no trabalho. Se os hábitos, a comunicação implícita e a forma de liderança não são profundamente repensados e redefinidas, essas ações ficarão como desperdício de tempo e dinheiro.

O conceito de produtividade

Mais uma vez, podemos considerar que estamos num período de transição: da era industrial, onde produtividade tem um senso mais quantitativo – pensamos numa linha de produção em que se deve gastar cada vez menos tempo para produzir uma unidade – para a era da robotização, em que a produção, no seu sentido mais básico, é transferida aos poucos às máquinas. Nessa nova configuração, a produtividade passou a ganhar um aspecto mais qualitativo, pois é necessário colaboradores que pensem melhor e não necessariamente produzem mais.

A cultura corporativa precisa se ajustar a essa nova realidade: além da autonomia em relação ao tempo previamente abordada, os colaboradores deveriam encontrar as condições ideias para serem mais produtivos e mais felizes. A Udemy conduziu uma pesquisa em 2018 (Udemy – 2018 Workplace Distraction Report) alertando sobre os riscos das distrações no ambiente de trabalho: uma organização que não cria as condições de trabalho favorecendo foco e produtividade, ou que não treina os seus colaboradores de forma adequada nesse aspecto, corre o risco de ver a insatisfação dos seus colaboradores aumentarem, por conta da frustração de não conseguir alcançar o seu potencial profissional, prejudicando, por sua vez, a produtividade e a qualidade de vida na empresa.

Repensar as metas, os métodos de gestão de projetos e as formas de gerir pessoas são elementos-chave da cultura corporativa, impactando diretamente a qualidade de vida dos colaboradores.

A hierarquia

Em vários relatos de pessoas que sofreram um Burnout (síndrome de esgotamento profissional) são evocadas as condições emocionais e psicológicas do ambiente de trabalho: pressão para atingir resultados, falta de reconhecimento, isolamento. As formas de interagir entre colegas e, em particular, com a sua hierarquia definem profundamente a cultura organizacional.

Ações pontuais não podem compensar os efeitos de uma cultura tóxica, onde os gestores são chefes e não líderes, onde as decisões e o reconhecimento pelos resultados não são compartilhados. Os métodos de gestão representam talvez o aspecto mais importante do impacto da cultura corporativa na qualidade de vida no trabalho. Nesse sentido, a cultura organizacional promovida pelas startups de tecnologia pode trazer reflexões interessantes: projetos colaborativos, estrutura organizacional horizontal, promoção do “direito de errar” e feedback contínuo são algumas das características dessas novas organizações.

No final das contas, a questão da qualidade de vida no trabalho só pode ser pensada em conjunto com a cultura corporativa: uma é consequência da outra. Se não houver essa reflexão profunda, as ações implementadas ficam apenas na superfície e podem até produzir o efeito oposto.

Por Armelle Champetier – diretora da Yogist Brasil, startup que desenvolve um método exclusivo de Yoga Corporativo (que pode ser feito na cadeira de trabalho, de maneira simples)

 

 

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