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Para evoluirmos na Equidade de Gênero, devemos falar sobre sub-representação

Criar uma cultura de igualdade não é apenas a coisa certa a fazer; é também a mais inteligente

Por Priscila Castanho, diretora de employee success da Salesforce para a América Latina

Com a pandemia de COVID-19 de pano de fundo, vivemos uma séria crise de desigualdade. Mulheres e meninas ainda enfrentam discriminação, seu acesso à educação ou assistência médica é desigual, e ainda provavelmente são mal remuneradas. De acordo com o Fórum Econômico Mundial (WEF), nenhum de nós verá paridade de gênero durante nossas vidas, e provavelmente muitos de nossos filhos tampouco verão. Visto que a pandemia afetou as mulheres de forma desproporcional e negativa, essa lacuna parece destinada a aumentar se não houver uma ação recorrente a favor da igualdade.

É portanto apropriado que o tema da ONU para o Dia Internacional da Mulher (IWD) em 8 de março tenha sido “Mulheres na liderança: Alcançando um futuro de igualdade em um mundo com COVID-19”. Todos se beneficiam quando mulheres e meninas são tratadas com igualdade. Esta é uma meta global na qual todos nós podemos – e devemos – trabalhar, inclusive em nossas empresas e locais de trabalho. Devemos comemorar aquilo que as mulheres conquistaram e refletir sobre quais passos as empresas estão dando – e podem dar – para promover a igualdade de gênero e proporcionar maiores oportunidades de liderança.

Lidar com a sub-representação 

De acordo com o relatório do WEF, existem três razões principais para persistirem os níveis atuais de desigualdade de gênero. Em primeiro lugar, as mulheres têm maior representação em funções que estão sendo automatizadas. Em segundo lugar, as mulheres enfrentam o problema persistente de insuficiência de infraestrutura de atendimento médico e de acesso a capital. Em terceiro lugar, ainda é pequeno o número de mulheres que ingressam em profissões nas quais o crescimento dos salários é mais pronunciado. O setor de tecnologia é um exemplo óbvio de onde as mulheres continuam significativamente sub-representadas. No Brasil, somente cerca de 20% dos profissionais da área de tecnologia são mulheres, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Novas barreiras para a participação econômica e liderança das mulheres surgiram durante a pandemia. Vimos, por exemplo, as mulheres assumirem um fardo ainda maior na responsabilidade de criar os filhos em casa, causando um impacto desproporcionalmente negativo em seu progresso no local de trabalho. De acordo com estimativas da McKinsey, as taxas de perda de empregos entre as mulheres têm sido cerca de 1,8 vez maiores do que as taxas de perda de empregos entre os homens em todo o mundo. Embora os recentes arranjos de trabalho flexíveis tenham o potencial de oferecer maior equilíbrio entre vida e trabalho, se não forem implementadas com cuidado, essas mudanças colocarão em risco o progresso duramente conquistado na luta por salários e igualdade no local de trabalho.

O maior desafio é lidar com a sub-representação das mulheres em funções emergentes, como computação em nuvem, engenharia, dados e Inteligência Artificial. Com foco na melhoria das competências e requalificação, as estratégias para a força de trabalho precisam garantir que as mulheres estejam mais bem equipadas para superar os desafios e aproveitar as oportunidades que a economia digital oferece. Ampliar a participação é uma coisa, oferecer oportunidades de liderança é outra. Para realmente promover a igualdade de gênero, devemos considerar todo o ciclo de vida do funcionário, começando por como atraímos e recrutamos talentos até como investimos no seu desenvolvimento.

Criar um ambiente inclusivo 

Criar uma cultura de igualdade não é apenas a coisa certa a fazer; é também a mais inteligente. Estudos têm mostrado repetidamente que um local de trabalho diversificado é mais lucrativo. A adoção de diversas práticas de contratação e programas de treinamento que atenuam os preconceitos conecta as empresas com candidatos aos quais, de outra forma, não teriam sido apresentados. Nos casos em que as mulheres se afastam temporariamente de suas carreiras, as empresas têm a responsabilidade de apoiá-las em sua jornada de volta ao trabalho. Tudo o que fazemos precisa ser sustentado por um compromisso de salários iguais para trabalhos iguais.

Para realmente construir um local de trabalho que se pareça com a sociedade, as mulheres precisam ser representadas em todos os níveis, especialmente em conselhos de administração e cargos de diretoria. Isso exige que elas sejam apoiadas em todos os estágios de suas carreiras por meio de investimentos em programas de desenvolvimento de liderança e processos de promoção inclusivos. Justiça no tratamento, oportunidades iguais, reconhecimento do sucesso e ampliação da visibilidade trarão mais mulheres para a mesa de tomada de decisão e inspirarão mais mulheres a subir na hierarquia. Neste mundo totalmente digital em que vivemos, no qual podemos trabalhar de qualquer lugar, as empresas têm uma responsabilidade ainda maior de criar um ambiente igual, justo e inclusivo que se traduza tanto no escritório quanto virtualmente.

A desigualdade é responsabilidade de todos. À medida que as economias emergem da pandemia, precisamos aproveitar esta oportunidade para criar um local de trabalho melhor, oferecer empregos significativos, e priorizar iniciativas de requalificação para que todos os grupos sub-representados possam avançar. As empresas podem ser a maior plataforma para mudanças positivas nesse sentido – defendendo, investindo e ajudando mais mulheres a assumir funções de liderança. Juntos, criaremos uma sociedade mais inclusiva do que antes, onde todos se sintam vistos, ouvidos e valorizados.

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