Políticas de igualdade racial em empresas brasileiras existem, mas ainda falta empatia

99jobs viu uma oportunidade para a criação da primeira edição do MEM para estudantes negros

Embora as empresas brasileiras pratiquem medidas para promover a inclusão de negros no mercado de trabalho, as ações ainda impactam, na prática, números pouco expressivos quando comparados ao número de pessoas brancas ocupando as vagas existentes. Segundo um levantamento realizado pelo Instituto Ethos em 2016 com 500 grandes empresas brasileiras, 12% delas dizem ter medidas para promover negros e pardos. Em 2010, o percentual era de 9% e, em 2000, de apenas 1%. Contudo, a mesma pesquisa revela que pessoas negras ocupam apenas 6,3% de cargos na gerência e 4,7% no quadro executivo, embora representem 54% da população brasileira.

O governo parece estar tentando remediar o que não foi feito até agora. Em 28 de junho desse ano, o presidente Michel Temer assinou um decreto que vai reservar para estudantes negros 30% das vagas em seleções de estágios nas repartições públicas. Contudo, a percepção dos jovens é que a iniciativa é somente o início e que, mesmo que pessoas negras cheguem a ocupar certos espaços, a visão que a sociedade tem sobre elas no mercado de trabalho ainda precisa mudar muito. “O negro tem capacidade para assumir muito mais desafios, mas as oportunidades ainda são poucas. Tal medida do governo não adiantará nada se não houver um processo de conscientização da sociedade”, diz uma estudante negra, que ainda afirma ter sofrido discriminação em diversos processos de estágio e prefere não se identificar.

Diante da conclusão de que os negros não passavam em etapas finais de processos seletivos de estágios, após diversas edições do MEM – estágio com desenvolvimento acelerado e intitulado Melhor Estágio do Mundo – Eduardo Migliano, co-fundador da HRtech 99jobs, viu uma oportunidade para a criação da primeira edição do MEM para estudantes negros. Além de receber coaching e mentoria com profissionais de prestígio, um grupo de jovens selecionados pela RHtech pôde vivenciar, durante o período das férias de julho, uma imersão em companhias brasileiras (neste ano são: Suzano, Natura, Santander e Magazine Luiza), nas quais eles têm a missão de propor uma solução estratégica para um desafio real dos negócios. O challenge da edição inédita foi: “Como melhorar a atração de candidatos de um determinado perfil (a ser definido pelas empresas)”.

Para chegar até esses estudantes, a recrutadora foi conhecer comunidades que os representam para divulgar as inscrições, contou com o apoio de influenciadores negros com voz ativa nas redes sociais e de ONGs como a ID_BR (Instituto Identidades do Brasil) que, por meio da campanha Sim à Igualdade Racial, promove o engajamento de organizações e da sociedade civil em prol de ações afirmativas e do crescimento socioeconômico da população negra, pela inserção no mercado de trabalho.

O especialista em encontrar a conexão de valores perfeita entre candidatos e empresas, como é conhecido por quem já passou por suas dinâmicas, complementa com o que vivencia frequentemente: “Temos 2 milhões de usuários na plataforma de recrutamento. Mas quando vamos a campo fazer as dinâmicas presenciais dos processos não encontramos os negros e, é mais raro ainda, vê-los nas etapas finais de estágios das empresas. Para se ter uma ideia, quando analisamos as edições do MEM desde 2015, temos uma forte estatística: dos 20 estudantes que foram contratados, apenas 1 era negro”, diz Migliano.

Hoje, esse único jovem negro selecionado em 2017, trabalha como estagiário na área de diversidade da Natura, fabricante brasileira de cosméticos. O estudante de administração de empresas Gustavo Jesus, de 22 anos, ganha um salário razoável, como ele mesmo diz, e ainda tem ambições de crescer na corporação. “Quando fiquei sabendo do estágio não pensei duas vezes e corri para me inscrever. Eu tinha acabado de ser demitido, após uma experiência difícil e traumática em um banco suíço”.

Apesar de confiante, Gustavo não tem como negar que ainda sente o racismo inconsciente no comportamento social, seja antes ou mesmo após a aprovação nos processos de contratação. “Quando não somos aprovados, as empresas não deixam explícito que foi por causa da cor, é um preconceito velado. Sentimos discriminação principalmente nas etapas presenciais. Quando estamos cara a cara, os brancos têm privilégio”, relata. “Acho que o negro pode contribuir com todas as áreas de uma empresa assim como o branco e, ainda, temos uma percepção adicional de como tornar as ações de inclusão mais concretas, pois não adianta as empresas terem políticas de diversidade racial e admitir negros se não souberem como tratá-los lá dentro e como fazê-los sentir que são parte do time”, completa.

A experiência positiva de Gustavo é vista como uma exceção, de acordo com o histórico de anos anteriores presenciado pela recrutadora, que já colocou mais de 50 mil pessoas no mercado de trabalho brasileiro.

Representatividade dentro das empresas

De acordo com Migliano, a média de inscrições obtidas para o MEM dos anos passados é de 3500 inscritos (500 candidatos para 1 vaga). Já nesta edição para negros, foram 500 inscrições. Número que, na visão do especialista, reflete o receio dos jovens em trabalhar em empresas que não têm negros no quadro de funcionários.

Ele reforça que a necessidade das empresas criarem empatia com os jovens no Brasil é tão grande que, desde o início, buscou aproximar os gestores com o mesmo perfil dos candidatos para entrevistá-los e recrutá-los. “O que diferencia esse novo programa dos outros é que, com uma pesquisa em mãos, sabíamos de uma dor muito forte dos estudantes negros: que é a falta de representatividade nas empresas. Nosso banco de dados revelou que eles gostariam de ser selecionados em estágios por outros negros. Assim, as empresas participantes aderiram ao formato de colocar os colaboradores negros de diversas posições e cargos dentro da companhia para recepcionar os estudantes e contribuir para que tivessem uma experiência acolhedora”.

Paula Silva, uma das selecionadas pelo MEM, conta que ficou tão impactada pelo programa, que foi pesquisar quem havia ajudado a construir aquela oportunidade de estágio diferente das outras. Foi quando descobriu a Dahra Quintella, líder da área de Cliente Experience da 99jobs que, como mulher negra, chamou o projeto para si e ajudou na estruturação das etapas ao lado de Migliano.

Já Renata Paschoal, outra jovem participante, expõe uma preocupação que vai além de sua realidade: “políticas de ações afirmativas possibilitaram que o número de pessoas negras aumentasse nas universidades, mas ainda estamos muito longe de viver em igualdade em todos os setores sociais”.

Neste mês de agosto de 2018, a Lei de Cotas raciais nas universidades completa seis anos de existência. Ela é considerada uma das maiores políticas de ações afirmativas no Brasil, tendo contribuído para elevar o percentual de negros e negras universitários de 5,5% para 12,8% entre 2005 e 2015 (de acordo com IBGE). Mas esse crescimento positivo não é igual quando a análise é a ocupação de vagas no mercado formal de trabalho. Mesmo mais graduados, os negros continuam com baixa representatividade nas empresas.

Novas políticas de contratação

Assim que foi lançado o estágio para negros, houve um interesse muito pró-ativo por parte das quatro empresas participantes, como o Santander que, desde janeiro de 2017, vem aumentando a contratação de funcionários negros de forma intencional. Hoje, o banco tem um quadro de 22% de funcionários negros e 78% de brancos em um total de 40 mil colaboradores, sendo que os negros ocupam 12% dos cargos de média gestão (gerência) e 5% dos cargos de alta liderança.

“Com a nova política de diversidade racial já contratamos 26% de funcionários negros entre 500 pessoas -somente entre janeiro e junho de 2018- e, com iniciativas como o MEM, tivemos a percepção do enorme potencial desperdiçado no mercado de trabalho. O que percebemos é que temos muitos jovens “hands on”, ou seja, que colocam a mão na massa para trazer resultados e outros tantos talentos escondidos que não estariam aqui se não fosse um programa que tratasse desse gap especificamente”, explica Letícia Sayuri, responsável por acompanhar os jovens do programa dentro do banco, e que já vê grandes possibilidades de contratação de alguns candidatos nos próximos meses.

A criação desse programa é mais um passo em direção ao propósito de provocar uma mudança no acesso ao mercado de trabalho, criando uma ponte entre candidatos e organizações que faça conexões com significado para os dois lados. E os principais valores que os candidatos priorizam hoje são aqueles que levam ao fim de barreiras que tenham qualquer tipo de preconceito, porque o que separa algumas pessoas de outras, nem sempre é o mérito, e sim a oportunidade”, completa Migliano.