Saúde

Psiquiatra dá dicas para manter a saúde mental em tempos de pandemia

O isolamento está nos obrigando a entrar de fato no século 21 no que diz respeito ao uso extensivo de tecnologias

É impossível falarmos sobre a pandemia global de Covid-19 sem falar sobre saúde mental. Tudo o que estamos vivendo neste momento — as perdas, as incertezas, o medo, o distanciamento social e tantas outras coisas — tem impacto sobre nossa vida emocional e psíquica. É fundamental discutirmos esses efeitos para que possamos nos cuidar e cuidar daqueles que amamos. 

O cuidado, aliás, é a palavra de ordem aqui. É o que tem nos motivado a ficar em casa e é o que tem feito com que permaneçamos conectados com nossa família e amigos mesmo que fisicamente distantes.

Só não podemos nos esquecer do autocuidado em meio a tudo isso: o noticiário é angustiante e as horas a mais dentro de casa podem fazer surgir sentimentos como a solidão, a ansiedade e até mesmo a culpa por não estarmos sendo tão produtivos quanto gostaríamos. 

Para tratar desses assuntos, o Glassdoor conversou com Rodrigo Fonseca Martins Leite, médico psiquiatra e diretor de relações institucionais do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. 

Glassdoor: Como a pandemia global de coronavírus tem afetado (e ainda pode afetar) a saúde mental das pessoas?

Rodrigo: Acredito que nenhum de nós estava preparado para enfrentar um momento como esse. Líamos sobre grandes epidemias nos livros de História, mas jamais imaginamos que algo semelhante aconteceria na nossa geração. Assim, isso vem como uma experiência traumática coletiva, que deve revolucionar o mundo — incluindo o mundo do trabalho, das relações, enfim, toda a forma como a gente se organiza como sociedade. E, do ponto de vista da saúde mental, qualquer experiência traumática ou que fuja tanto daquilo que tínhamos como certo acaba trazendo sérias consequências. 

No curto prazo, a grande preocupação é que as pessoas que já faziam tratamento psiquiátrico fiquem desassistidas. Existe um risco considerável de desabastecimento, tanto no setor público quanto no privado — o que significa que muitos usuários de medicação contínua podem ficar sem seus remédios. Além disso, tenho observado como médico que muitos colegas não estão familiarizados o suficiente com as plataformas digitais para dar assistência virtual aos seus pacientes neste momento de distanciamento social. Isso pode acabar ocasionando a perda do vínculo com essas pessoas, o que também prejudica o tratamento.  

Calamidades locais, como a de Brumadinho, vêm sempre acompanhadas de um aumento de problemas de saúde mental e abuso de álcool e drogas, e os dados disponíveis sobre essas situações podem nos ajudar a prever como as coisas podem ficar a médio prazo numa escala global. Novas populações certamente irão desenvolver transtornos por conta da pandemia de Covid-19 e dos novos problemas sociais que vão se somar aos que já estavam presentes. Creio que a saúde mental vai ser a próxima grande pandemia. 

Que consequências o isolamento pode trazer para a nossa saúde mental? 

O isolamento está nos obrigando a entrar de fato no século 21 no que diz respeito ao uso extensivo de tecnologias. Muitos estão correndo para aprender a usar diferentes plataformas a fim de dar conta das novas demandas que estão surgindo a cada dia. Essa necessidade de se adaptar tão rapidamente a um novo contexto é algo que contribui para o aumento do estresse, ainda que seja, talvez, um dos efeitos mais brandos do isolamento. 

Um ponto de maior impacto na saúde mental é a falta de contato presencial. A falta de suporte social é um estressor muito importante e é perigoso especialmente para certas populações mais vulneráveis, como idosos e outras pessoas que já vêm de um contexto de solidão intensa.

Além disso, estamos vivendo um enlutamento coletivo. Há muitos óbitos ocorrendo, e não ser possível às pessoas realizarem seus rituais (como o velório, por exemplo) adequadamente só adiciona ao trauma. A mortalidade precoce, repentina, que ao contrário do que se pensava tem incluído também pessoas jovens e sem doença de base, é outro elemento que adiciona mais estresse ainda. 

E o que as pessoas podem fazer para lidar melhor com toda essa situação e com o excesso de notícias ruins que estão aparecendo o tempo todo nos meios de comunicação? 

Eu proponho um consumo racional das informações. Há muitas pessoas com o noticiário ligado o dia todo, e isso faz muito mal. Precisamos aprender a restringir um pouco o nosso acesso à informação, a buscar fontes mais pontuais (e confiáveis, é claro) para nos mantermos atualizados. Evidentemente, não podemos fingir que nada está acontecendo: precisamos ter uma conexão com isso. Mas não precisa ser o dia todo.

Além disso, precisamos conseguir nos desconectar por alguns momentos ao longo do dia para alternar o trabalho com períodos de recolhimento, reflexão e descanso. Você pode fazer isso dormindo um pouco, ouvindo música, assistindo a um episódio de uma série… 

Isso é interessante, porque muita gente tem se preocupado muito com a produtividade nesses tempos. Como podemos ter um conceito equilibrado a respeito disso? 

Sim. Nós precisamos dessas pausas ao longo do dia porque, além de tudo, nosso desempenho no trabalho está bem aquém do que costumava ser em situações normais. Tenho visto pessoas com uma autoexigência aumentada, querendo render de forma elevada — e sentindo-se frustradas ao perceber que não conseguem. Simplesmente não dá para ter uma performance 100% hoje, isso não é humanamente possível. Estamos com uma ameaça mortal que paira no mundo, e ao abrirmos os olhos de manhã já nos lembramos disso.

É preciso ser generoso consigo mesmo, e dar um tempo quando perceber que o esforço está sendo demais. Nesses momentos devemos parar um pouco, mudar a atividade, inserir o lazer. 

Que hábitos podem ser cultivados para amenizar a ansiedade e angústia durante esse período?

Há três tipos de manifestações que são as mais comuns em momentos assim. Uma parte das pessoas tem se sentindo apreensiva, angustiada, ansiosa; outras estão depressivas, paralisadas, dormindo mais, comendo mais. E há o terceiro grupo, de pessoas que começam a manifestar sua ansiedade ou tristeza por meio de sintomas físicos e passam a achar que estão com o vírus. 

Para todas essas, realizar atividades físicas leves é muito importante. A dança é uma possibilidade dentro de casa para quem não tem o hábito de se exercitar, por exemplo. Atividades de lazer dentro do possível também são fundamentais  — e as pessoas têm sido muito criativas ao fazer happy hours em videoconferência com os amigos e outras coisas do tipo. Não devemos deixar isso acabar. O distanciamento social não deve ser sinônimo de solidão. A interação, seja ela virtual ou física, é fundamental para a nossa saúde mental.  

Além disso, práticas do tipo meditativas, com treino respiratório, são bastante adequadas para nos sentirmos menos ansiosos, pois permitem desenvolver níveis maiores de autocontrole. Qualquer prática que nos permita fazer isso vai diminuir a sensação de desamparo, desespero, de estar totalmente à mercê das circunstâncias. 

Nesse contexto de ansiedade aumentada, combinada com o fato de estarmos trabalhando de casa, pode ficar difícil se desconectar totalmente.  Como garantir o equilíbrio entre trabalho e descanso enquanto se faz home office? 

Quando ficamos muito tempo em casa, nosso ritmo biológico tende a se alterar. Passamos a acordar, comer e dormir em horários diferentes dos habituais, e o organismo percebe a diferença. Por isso, é importante organizar a agenda para manter horários fixos para as atividades, incluindo períodos de descanso e lazer. Isso vai nos ajudar a diminuir o impacto desse cenário todo no ritmo biológico e atenuar os seus efeitos no sono.  

O sono é fundamental para a saúde física e mental, e especialmente para a imunidade, que mais do que nunca deve ser preservada. Nesse sentido, também é recomendável evitar o consumo de substâncias estimulantes como café, chás com cafeína e refrigerante a base de cola, bem como o cigarro. 

Outro problema importante é que dentro de casa acabamos perdendo a exposição à luz solar. Para diminuir os impactos disso, aproveite as oportunidades que tiver para receber um pouco de luz solar direta na sua casa, seja na janela ou no quintal. Trabalhar em um ambiente escuro ou onde você dorme também não é legal. Não concentre tudo no mesmo lugar.

O que as pessoas que estão sem trabalhar podem fazer para atravessar este momento da melhor forma possível?  

É importante ocupar o dia com atividades que lhes sejam familiares — pode ser leitura, um trabalho manual, qualquer coisa que ajude a sentir que existe algum nível de rotina dentro de casa. Procure respeitar os horários de sono e refeições da mesma forma que faria se estivesse trabalhando, e mantenha uma agenda para organizar suas atividades e distribuí-las ao longo da semana. E mantenha a interação social, mesmo que seja a distância. 

Por fim, o que as empresas podem fazer para proteger a saúde mental dos funcionários? 

Estamos em um momento em que já não dá mais para fugir desse tema: as empresas vão ter que adotar programas de saúde mental, especialmente as de grande e médio porte. Mas isso não pode se resumir à contratação de um psicólogo no ambulatório da companhia. Esse tipo de entendimento é um equívoco muito grande porque considera apenas o topo da pirâmide, ou seja, as pessoas que já estão em um nível avançado do problema e que provavelmente precisarão de algum tratamento psicológico. Existe toda uma base dessa pirâmide que precisa de investimento em prevenção. 

Leia também: Como as empresas têm cuidado da saúde mental de seus funcionários durante a pandemia

Tal investimento deve ser baseado no perfil populacional da própria empresa. É preciso levantar suas características sociodemográficas, detectar subpopulações e fazer uma análise de fatores de risco de cada uma delas. Não dá para fazer a mesma intervenção para todos, precisamos ter um olhar mais customizado que lide com diversidade. 

Outro chavão a ser evitado é achar que ter um programa de saúde mental pode se resumir a chamar alguém para palestrar. Esses programas devem estar instituídos no seio das corporações e atuar de forma contínua, com ações pré-programadas e também com respostas a eventos inesperados. 

Rodrigo tem feito lives quinzenais nas redes sociais para falar sobre saúde mental. Acompanhe-o no Instagram e no Facebook para ficar por dentro da programação

 Postado por Ana Prado

Parceria de conteúdo Mundo RH e Glassdoor

 

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