Artigo

Saúde mental dos funcionários é fator preocupante nas corporações

A consultora organizacional e especialista em desenvolvimento humano, Caroline Marcon, destaca como as empresas investem em programas de conscientização mental para as lideranças a fim de auxiliar seus colaboradores

Caroline Marcon é professora de MBAs de Gestão Estratégica de Pessoas e Liderança da FGV/SP.

A campanha Setembro Amarelo tem como objetivo conscientizar a população brasileira sobre a prevenção do suicídio. Sabe-se que 97% dos casos de pessoas que tiram a própria vida estão relacionados a transtornos psiquiátricos. Sendo o Brasil, o país com a população mais ansiosa do mundo, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 2020, e estando entre os cinco países com mais casos de depressão, esta data é motivo para gerar reflexão profunda e preocupação.

A especialista em desenvolvimento humano, cultura e coach executiva, Caroline Marcon, destaca que a saúde mental é um fator de preocupação também para as grandes empresas, pois, além de poder causar danos à integridade física de seus colaboradores, influencia bastante na produtividade do funcionários e consequentemente no desempenho financeiro das corporações. Caroline lembra da definição de saúde mental da OMS para embasar sua afirmação. “Saúde mental é um estado de bem-estar no qual o indivíduo realiza suas habilidades, consegue lidar com o estresse normal da vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir com a comunidade da qual faz parte”, diz o órgão.

Não à toa, de acordo como estudo liderado pela própria OMS, a estimativa é de que na atualidade transtornos de saúde mental gerem perdas de US$ 1 trilhão por ano para a economia global. Sendo a perspectiva futura bastante desastrosa: de acordo com a organização, até 2030, a depressão será a maior causa de perda de produtividade em todos os países economicamente desenvolvidos.

Caroline explica que o transtorno mental interfere no desempenho dos funcionários e consequente na saúde financeira de uma empresa de diversos modos. Os mais comuns são:

 – Sensação de perda de controle: quando não se consegue gerenciar corretamente pensamentos e emoções, perde-se a perspectiva de longo prazo. Sem conseguir planejar com clareza o próximo passo, fica-se propenso a consumir por impulso, ou seja, a gastar o que a empresa não necessita;

Tendência em evitar problemas: quando a pessoa não se sente bem emocionalmente, evita a todo custo lidar com assuntos difíceis que podem piorar a situação. Ao optar pela inação por não conseguir pensar com clareza pode-se prejudicar a corporação;

Perda de autoestima: a baixa autoestima faz com que a pessoa aceite acordos que não são favoráveis, seja para “comprar” paz e aceitação ou por faltar energia para lutar por condições “ganha-ganha”.

Questão tão importante e que causa tantos prejuízos em âmbito pessoal e profissional o transtorno mental muitas vezes é de difícil diagnóstico por parte das organizações. “Como se trata de um assunto tabu, costuma ser escondido, transformando-se em pandemia silenciosa”, explica a consultora organizacional.

Caroline cita os estigmas mais comuns associados à saúde mental, que são responsáveis por esconder os problemas e aumentar o sofrimento de quem os experimenta. São eles: problemas mentais são considerados sinal de fraqueza; assumir um problema de saúde mental prejudica a carreira, porque a pessoa torna-se não confiável pela liderança; não há tratamento eficaz para problemas mentais.

Impacto da pandemia na saúde mental

Muitos fatores contribuem para que as pessoas desenvolvam transtornos psiquiátricos. Fatores estruturantes, como pobreza e desemprego, e ambientais, como estilo de vida em grandes cidades, são alguns deles. Nos últimos anos, porém, a pandemia veio somar-se à lista de motivações que geram problemas de ordem mental. Em 2021, uma pesquisa realizada pela empresa de consultoria empresarial norte-americana Mckinsey mensurou o impacto da pandemia na saúde mental de trabalhadores corporativos do mundo todo.

Um dos aspectos investigados pelo levantamento realizado com 1100 executivos e 2656 colaboradores de 11 países foi a capacidade das empresas em melhorar as condições de trabalho de seus funcionários durante a pandemia. De acordo com Caroline, o que se depreende da pesquisa é que de maneira geral as empresas estão conscientes da situação, adaptando-se de forma rápida para oferecer mais segurança e flexibilidade a seus funcionários.

Por exemplo, conforme o levantamento, 96% dos pesquisados percebeu mudanças nas políticas de RH neste período, como auxílio para trabalho remoto, períodos de licença não remunerada, jornadas de trabalho mais curtas e benefícios de saúde extensíveis a familiares. Contudo, segundo a especialista em desenvolvimento humano, analisando a pesquisa, há ainda muito o que melhorar, isto porque apenas um em cada seis respondentes disse sentir-se apoiado adequadamente pelas empresas.

Um dos fatores de maior preocupação para estas pessoas é a saúde mental. A pesquisa constatou que 62% dos entrevistados consideram esse o principal desafio em tempos de pandemia. Se for levado em consideração apenas as mulheres este número é ainda maior: 67% das respondentes afirmaram que a saúde mental deve estar no topo da lista de prioridades.

Além disso, outras preocupações associadas à saúde mental também foram destacadas pelos respondentes como fator de preocupação na pandemia, entre as quais: sentimento de desconexão com o trabalho e colegas; falta de oportunidades de desenvolvimento; preocupação com as condições de saúde e segurança no trabalho presencial; e dificuldade de conciliar a criação de filhos pequenos com o trabalho remoto.

Como as empresas podem fomentar uma cultura de segurança e cuidado

De acordo com Caroline, para conseguir identificar e apoiar quem sofre de transtornos psíquicos, as corporações precisam encontrar formas efetivas de se comunicar com seus funcionários. Nesse sentido, conforme a consultora organizacional, algumas empresas passaram a investir em programas de conscientização mental para as lideranças.

“Além de empatia, escuta ativa, disponibilidade para conversar, os líderes são treinados para saber identificar os primeiros sinais de que algo não vai bem com seus funcionários”, explica Caroline, destacando que altos níveis de estresse e ansiedade podem ser percebidos quando há mudanças bruscas no comportamento, tais como: nervosismo excessivo e irritabilidade, agressividade ou passividade fora do padrão, fuga de contato social, cansaço e dores frequentes.

Ao detectar o aumento do estresse no ambiente de trabalho, os líderes devem procurar comunicar-se com mais frequência de modo mais cuidadoso com sua equipe. De acordo com a consultora organizacional, uma regra que pode ajudar neste momento é chamada de “15-3-1”. Nela, o líder dedica 15 minutos para conversar com três pessoas do seu time, uma vez por semana. “Devem ser conversas extras, além das reuniões de rotina”, diz Caroline.

Além disso, segundo Caroline, um líder serve de inspiração para seus colaboradores, por isso deve agir como exemplo. Assim, estar em boas condições de saúde física e mental é fundamental. “Não pode ser um bom líder uma pessoa que não se cuida, ou seja, que come mal, dorme mal, está sempre ansioso, trabalha demasiado e não descansa. Todos esses aspectos interferem na qualidade de presença do líder”, diz.  Conforme a especialista em desenvolvimento humano, o líder deve aprender a respeitar os períodos de pausa como uma necessidade e não um luxo, para que os colaboradores façam o mesmo.

Caroline Marcon é professora de MBAs de Gestão Estratégica de Pessoas e Liderança da FGV/SP.

Botão Voltar ao topo