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“Sei que para os homens é difícil de entender, pois eles nunca sofreram na pele o que as mulheres sofrem todos os dias”

Autora do best seller “Não se apega, não” destaca a importância de debater o tema

Mulher decidida! É assim que a escritora e influencer Isabela Freitas se autodenomina. Autora da trilogia literária “Não se apega, não”, “Não se iluda, não” e “Não se enrola, não”, que liderou a lista de livros mais vendidos nos últimos anos, Isabela passou para a personagem de sua obra que o amor próprio é o mais importante e que a mulher tem de ser livre para fazer o que bem quiser.

Apoiadora do movimento feminista, Isabela fala sobre o tema e destaca que é preciso desconstruir a imagem que o movimento tem em meio a uma sociedade machista, para mostrar sua real intenção.

Para a escritora, que já vendeu mais de 2 milhões de livros, é necessário que a sociedade entenda que o feminismo não é o oposto do machismo.

“O machismo acredita que o homem seja superior às mulheres, o feminismo luta pela igualdade entre os dois gêneros. Sei que para os homens é difícil de entender, pois eles nunca sofreram na pele o que as mulheres sofrem todos os dias”, argumenta a autora, que diz que não foi fácil para as mulheres se manifestarem contra as imposições:

“Até para nós, mulheres, foi difícil “acordar” e perceber que algumas coisas que nos eram (e são) impostas dia após dia, pela família, pela mídia, por pessoas próximas, é apenas um reflexo do machismo que está incrustado na nossa sociedade. Sabe quando você pergunta a origem de algo e te dizem: ‘Ah, não sei. Só sei que é assim”?. Eu sempre escutei que “mulher tem que se dar respeito”, que “homem não gosta de mulher mal arrumada”. Toda vez que estou em um restaurante, a conta é entregue ao homem, nunca a mim. Quando algum cara pedia pra ficar comigo, e depois notava que eu estava acompanhada, ele pedia desculpas ao cara que estava comigo.

Quantas vezes tive medo de dizer “não” em uma balada e escutar xingamentos que vão de puta até gorda? Poxa, eu não posso “não querer” alguém? Não tenho esse direito? Quantas vezes deixei de colocar um short com medo do que iriam pensar de mim? Quantas vezes abaixei a cabeça ao escutar alguém me cantando no meio da rua, por puro medo? Quantas vezes eu agi como uma presa, com medo do seu algoz? Quantas vezes nós, mulheres, somos tratadas apenas como uma imagem? Algo a se admirar? Quando eu gostava de futebol, eu tinha que provar pros caras que eu entendia de futebol. Cara, isso era tão patético! Nenhum homem tinha que provar que entendia, já eu tinha que responder o que era impedimento e saber escalar meu time de trás pra frente. Eu fazia isso com orgulho, como um cão adestrado que ficava feliz quando seu dono o elogiava e dava biscoito”.

A escritora se entristece quando reconhece o machismo. Mas acredita que ele está tão enraizado na nossa sociedade que muitas mulheres não percebem:

“Algumas mulheres estão despertando, outras preferem continuar em transe”.

Nos livros da autora, a história da personagem Isabela começa com o término de um relacionamento que até então era considerado perfeito por quem conhecia o casal. Mas a busca pelo amor próprio prevaleceu.

Eu sempre fui uma mulher decidida, e que coloca o amor próprio acima de tudo. Talvez a figura de uma mulher forte na minha vida, minha mãe Regina, tenha me inspirado a ser assim. Minha mãe sempre me criou pra ser independente, se eu queria alguma coisa, ela falava “Vai lá. Você consegue. Você não precisa de ninguém pra isso.” Parece pouco, mas quando temos alguém do nosso lado que diz que nós temos a capacidade de conseguir o que queremos, e que nos incentiva, coloca pra cima, o amor próprio vem naturalmente. Por isso que eu digo, incentive sempre as pessoas ao seu redor. Elogie as pequenas coisas. Seja a mão que empurra sempre para frente, e a mão que se estende quando a pessoa cair”, pontua a escritora que não enxerga disparidade entre gêneros no universo literário:

“Nunca me senti menor por ser mulher nesse mundo. Não vejo diferença de valores, nem de reconhecimento. Mas talvez seja meu amor próprio falando( risos)”.

A falácia de que a mulher feminista não se depila ou outros preconceitos são desconstruídos por Isabela. Ela ainda ensina argumentos para quem proferir essas frases.

“Se alguém te diz que uma feminista é alguém que não se depila, calmamente argumente “Ah, é? E por que?”. O porquê às vezes acaba com a pessoa. Ela não sabe o porquê do que diz. Ela apenas diz. Reproduz frases prontas que fazem parte da “programação” da sociedade. Direitos iguais não se trata somente de poder ter pelos no corpo. Lutar por direitos iguais é lutar por poder andar nas ruas e não sentir medo. É poder usar uma roupa curta e não ser assediada. É poder dizer “não” sem medo de ouvir um esculacho. É poder deixar de fazer a unha sem a vizinha te olhar torto. É poder ficar desleixada vez ou outra, ou todo dia, e não ser julgada porque mulheres “devem” estar sempre arrumadas. É poder ficar com quem a gente quiser, onde a gente quiser, do jeito que a gente quiser, sem receber a fama de “vagabunda”. É poder ter o sonho de ter uma carreira de sucesso, e não querer se casar ou ter filhos. É poder não saber cozinhar, e não precisar aprender só porque é mulher. Não é mimimi. Se você mulher que tá lendo e se identificou com algumas dessas situações, é por isso que o feminismo luta. Nós simplesmente cansamos de nos calar e deixar que digam o que é melhor pra nós. Queremos a liberdade para sermos quem quisermos ser, sem imposições ou restrições. Então que seja, lésbicas, heterossexuais, com pelo, sem pelo, gordas, magras, e acima de tudo: MULHERES. Todas deveriam abrir os olhos e lutar ao lado do feminismo. Porque o feminismo luta para que você seja mais feliz. Vai por mim”, pondera Freitas, que também indica livros sobre o tema.

“Se você nunca leu nada sobre feminismo, eu vou indicar três livros que me abriram os olhos: ‘Os homens explicam tudo pra mim” da Rebecca Solnit, ‘O mito da beleza” da Naomi Wolf’, e o clássico ‘Eu sou Malala’ de Malala Yousafzai. Garanto boas leituras”.


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